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O repeteco do velho problema: o mimimi da tradução

Este fim de semana a editora Companhia das Letras, através de seu selo Quadrinhos na Cia., divulgou nome e volume da versão nacional de Seconds, graphic novel de Bryan Lee O’Malley (de Scott Pilgrim Contra o Mundo).

Bastante elogiada lá fora, a graphic era bastante aguardada no Brasil. A tradução ficou a cargo do sempre competente Érico Assis, ex-ovos.

A escolha do título nacional foi ousada: sai “Seconds”, entra “Repeteco”. Antes mesmo de qualquer coisa, Érico publicou uma nota em seu Facebook sobre a escolha:

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Era uma antecipação até óbvia: o xilique ia vir. E veio, tão logo o autor postou que o gibi ia ser publicado no Brasil. “Repeteco é ruim”, “Mantém no original”, “Voltou o tempo das traduções do SBT” e a melhor de todas: “Segundos, a tradução literal, é very better!”

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O mimimi (ou mymymy, numa tradução pro inglês) foi tão grande que, aliado ao imenso volume de RT e Likes que a postagem recebeu, fizeram com que Bryan perguntasse o que os brasileiros faziam da vida antes da criação do Twitter:

É claro, o mimimi não muda nada na publicação do álbum: a decisão editorial já foi tomada, “os convites já foram pra gráfica”. Mas, ao mesmo tempo, mostra como a lógica do futebol está também no campo da tradução: todo mundo acha que sabe fazer seu trabalho melhor do que você.

Traduzir não é simplesmente trocar uma palavra na língua original por outra no português. Imagine ir ao cinema assistir “Caindo”, tradução literal de “Falling Down” ou… o nosso amado “Um dia de fúria”. Qual diz algo sobre a trama? “Caindo” não tem em português qualquer evocação de perda de sanidade que o Falling Down americano tem. Fosse lançado hoje, talvez “Surtando” fosse a melhor escolha, mas ela não estava disponível (no sentido de popularidade) lá na década de 90. Claro, o exemplo mais obviamente citável é o de “O Poderoso Chefão” (The Godfather), cujo sentido literal seria o lusitano “O Padrinho”. Porém, há uma afabilidade em “O Padrinho” que não cabe ao filme, ou pelo menos não cabe como primeiro plano (a editora Expressão e Cultura até tentou um simples “O Chefão” quando publicou originalmente aqui o roteiro de Mario Puzo, mas não colou).

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Não acho “Repeteco” uma palavra incrível, um título maravilhoso. Percebo também o incômodo não-dito por quem reclama: a palavra soa infantil, boba. Mas entendo que, formalmente, não haviam outras opções disponíveis: não há em Língua Portuguesa uma palavra que faça, ao mesmo tempo, o sentido de repetir (um prato – Katie tem um restaurante na trama) e tentar de novo. “Seconds” faz isso em inglês. No português, Repeteco se aproxima. Não, sugerir a tradução pra “Segundos” não faz sentido nenhum, só Caetano Veloso explica.

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Noutro ponto, sugere-se que fosse mantido nome original – o que faria do gibi algo que (pelo título) não fede nem cheira. Ao mesmo tempo, optar por uma tradução “polêmica” quando a moda é enfiar goela abaixo o anglicismo é até bonito de se ver. Pra quem viu Super-Homem virar Superman, a fadinha do Peter Pan deixar de ser Sininho pra adotar o quase impronunciável Thinkerbell, uma ousadia dessas chega a ser um alento. Que o diga o Lojinha, que nem sabe que antes dele nascer os My little Poney chamavam Meu Pequeno Pônei (minhas sobrinhas chamam de Málinoponei)…

MAS A VERDADE QUE NINGUÉM DIZ é que tudo não passa de uma jogada de marketing pra divulgar a coluna do Caruso lá no Abacaxi Voador!

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