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A hora e a vez dos independentes (a gente lemos!)

Uma coisa que sempre me incomodou foi como resenhar quadrinhos autorais independentes? Sim, porque usar os mesmos critérios que eu uso para os quadrinhos comerciais parece longe de ser justo – há diferenças de tiragem, de distribuição, de trabalho editorial e muitas vezes de experiência que precisam ser levados em conta. Assim, sempre que rolar vou fazer um “A gente lemos” especial com quadrinhos independentes, que é o caso agora. Ou sejE: quadrinhos independentes, UNIIII-VOS!

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:: Lost Kids: buscando Samarkand, de Felipe Cagno

Roteiros de Felipe Cagno, a arte de diversos artistas. 272 páginas, R$30,00 (em PDF) ou R$50,00 (impressa) no Catarse.

Sim, você não está tendo uma alucinação, eu já falei de Lost Kids por aqui: a HQ está captando recursos no Catarse para ganhar versão impressa. Looogo, eu obviamente tive acesso à versão digital.
Primeiro, gostei da história. Achei legal a pegada meio RPG/Caverna do Dragão (mas com final) que ela tem. Acho inclusive que tinha gás para uma série mais longa, meio que um “road movie” de fantasia medieval, explorando mais as cidades e os relacionamentos entre os personagens – algo tipo Holy Avenger. Entretanto, achei o final muito corrido, e a inserção de personagens na trama mal explorada: Nightmare e o Maguinho boladão lá (me esqueci do nome dele) entram na trama e pronto. O primeiro até sofre alguma resistência por parte de Al, mas o segundo, mesmo havendo motivos sérios para não ser aceito no grupo vai ficando e ninguém questiona. Mesma coisa a crocodilagem de um dos membros, que é apagada como se não tivesse acontecido.

Mas eu acho que o que pega mesmo com LK é a variação da arte. Ter diferentes artistas é algo bom a princípio, porque oferece diferentes visões, formas de narrativa e tal. O problema é que em Lost Kids essa variação traz problemas, primeiro pela diferença abissal de qualidade entre alguns trabalhos (aguentar a arte repetitiva e limitada de Ben & Joey Vasquez só vale a pena para, logo depois, ganharmos de presente a arte excelente do Rafael de Latorre, por exemplo) e, por outro, não manter uma (vou chamar de) coerência entre a representação dos personagens. É bem difícil engolir que Kate e Evelet são tão idênticas – na maioria dos casos elas nem se parecem! A própria Kate é difícil de reconhecer na mudança dos artistas, em certo momento ela até fica ruiva! Tudo bem, leitores escolados de comics vão tirar esse problema de letra, mas mesmo estes escolados vão penar um pouquinho quando os personagens chegam a Catalina Anchorage e mudam de aparência sem qualquer explicação. Custei a sacar que o magrelo imberbe era o antes musculoso e barbudão Sheridan Colt.

Conversando com o Cagno, ele reconheceu esses problemas – e são problemas passíveis de quem está bancando a coisa toda do próprio bolso, na cara e na coragem, contando com a boa vontade de desenhistas e coloristas para fazer a coisa nascer. Lost Kids é um projeto ambicioso, grande, e como tal, muito arriscado. E quem arrisca muito, acaba errando mais, é matemático. Entretanto, o resultado final é bom. Podia ser melhor, mas ainda assim alcança o nível médio daquela sua leitura mensal do Bátema – sendo que a Morcega é feita com muito mais recursos…

Nota: 2,5/5

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:: Inspiração, de Camilo Solano

Roteiro e arte de Camilo Solano, 64 páginas (R$20,00), à venda pela fanpage ou na Gibiteria, Comix e Monkix (em São Paulo)

Inspiração é, na verdade, o trabalho de conclusão de curso de Camilo Solano. Que atire a primeira pedra o nerd que nunca deu um jeito de meter (ui!) quadrinhos no meio da graduação (ou da pós, né?).

Pois o Camilo comprou a bronca, e fez uma HQ sobre o processo criativo de uma HQ (inception-on-on!). Bem, ao menos isso é o que ele diz que fez, mas eu acho que Inspiração é muito mais a história de um
sujeito “mudando de fase” ao encontrar com seu ídolo: no caso, Camilo e o grande Lourenço Mutarelli. Isso porque, num contato quase fortuito, Mutarelli se oferece para escrever uma HQ para ser ilustrada por Camilo, e a história gira bastante em torno do vindouro encontro entre os dois para a entrega da história. Em paralelo, reflexões sobre a produção de uma HQ e o rompimento das barreiras da juventude: a cidade pequena, os trabalhos provisórios…

Tantos assuntos (principalmente a subtrama entre Camilo e seus amigos) acabam sendo um pouco confusas – um tanto por uma “solidez” do traço que Camilo ainda não tem, e, noutro ponto, pela não conexão direta dessa trama com o suposto ponto central da história. Por isso que eu acredito que Inspiração acaba falando mais do que se esperava que falasse: os amigos trazem ali um conflito do crescimento, da percepção de que a forma de encarar o mundo que funcionou até aquele momento já não serve mais. É uma sensação que, querendo ou não, todos nós sentimos por exemplo ao terminar a faculdade. Não é tanto os personagens falando, é o próprio Camilo.

Talvez essa seja uma grande viagem psicologista, mas pra mim, mais do que falar do processo de criação de uma HQ (esse é o plot lá do Circo de Lucca, por exemplo) Inspiração fala de crescimento, de passagem. Do ídolo distante (uma cabeça na parede) que fica próximo, da cidade pequena que talvez não caiba mais com seus pequenos trabalhos, do fim do ciclo da formação profissional. É um bom trabalho então.

Quanto ao acabamento, Solano (não o Affonso) apresenta um trabalho muito bonito: lombada quadrada, bom papel e boa impressão. Material fino!

Nota: 3,5/5

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