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Quando um confronto de super-heróis fez sentido (A gente lemos)

O ano era 1978. À frente do título Superman, o roteirista Gerry Conway foi encarregado de escrever a primeira edição da nova revista All New Collector’s Edition, versão remasterizada da Limited Collector’s Edition, uma série especial de revistas em tamanho tablóide (25x38cm mais ou menos). Ao lado de seu parceiro de lápis no título regular, o imortal José Luis García-López, Conway chegou com o pé na porta: para a mudança, escolheu contar uma porradaria secreta ocorrida entre Superman e Mulher-Maravilha (a All New Collector’s Edition se notabilizaria por outro confronto titânico: a pancadaria entre Superman e Muhammad Ali também seria publicada no título, alguns meses depois).

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Confrontos entre super-heróis costumam ser grandes bobajadas. Divertidas a maioria das vezes, mas bem bestas. Geralmente é aquele lesco-lesco de sempre, vilãozinhos dos dois heróis inventam um quiprocó para que os paladinos se enfrentem, eles se enfrentam e no meio da briga percebem o esquema e vão atrás dos vilões. Já lemos isso milhares de vezes, da origem dos Vingadores aos embates intereditoriais (Batman Vs Hulk, Superman Vs Homem-Aranha, etc).

O lance aqui é que Conway foge léguas desse mais do mesmo. Superman e Mulher-Maravilha saem no braço com motivo: ambientada em 1942, a história apresenta os heróis enfrentando, separados, ameaças do Eixo dentro ou nas imediações dos Estados Unidos. Nesses confrontos, Superman e Mulher-Maravilha descobrem que os EUA estavam desenvolvendo um projeto para colocar fim à Guerra, o Projeto Manhattan. E aqui entra a sacada: mais conservador (traço de personalidade que seria explorado de maneira definitiva no Cavaleiro das Trevas de Frank Miller anos depois), o Superman opta por proteger o projeto que daria origem à bomba atômica. Por seu lado, a estrangeira Mulher-Maravilha acredita que nada de positivo pode advir da bomba. Essa divergência radical de posicionamento colocar os heróis para saírem no braço.

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Claro que há aquela farofada clássica remanescente da Era de Prata dos quadrinhos, quando os heróis decidem enfrentar-se em campo neutro e pacientemente se dirigem para brigar na Lua. Ao mesmo tempo, é uma história típica da Era de Bronze: as motivações bestas, do mal pelo mal, são deixadas completamente de lado e um contexto político serve de pano de fundo e motriz para a trama.

Evidentemente uma história assim teria problemas para se concluir. A escolha de qualquer lado (manter ou destruir a bomba) seria um posicionamento político complicado de ser assumido abertamente. Conway escolhe sair pela tangente (a bomba é destruída pelos vilões e Roosevelt se compromete a não dispará-la – o que de fato não vai acontecer: em 1945 Roosevelt morre antes do fim da Guerra e seu sucessor, Truman, decide bombardear Hiroshima e Nagasaki). Entretanto, essa “tangente” é capciosa: num mundo em que existem seres como Superman, Lanterna Verde, Joel Ciclone e Mulher-Maravilha, não há nenhuma razoabilidade no uso da bomba; porém não é a barra dos meta-humanos que Conway quer manter limpa, mas de Franklin Delano Roosevelt, um dos presidentes mais carismáticos da história estadunidense. Isso fica claro nos últimos diálogos, que marcam também o posicionamento de Conway sobre a questão toda: se Roosevelt empenha a palavra em não usar a bomba, a Mulher-Maravilha faz um paralelo praticamente óbvio com a Caixa de Pandora, ao dizer que os demônios libertos pela bomba não poderão mais serem recapturados. É bonito ver o espírito “paz e amor” de Gerry Conway manifestar-se no último minuto: a força não basta. Esse era o espírito original que animava a Mulher-Maravilha de Charles Moulton, que defendia a governança do mundo pelo amor.

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Sobre a arte não há nada a dizer. José Luis García-López é indiscutível, é simplesmente A CARA DA DC para as crianças da década de 1980/90, e não necessariamente por ter trabalhado em grandes histórias, mas por ter feito a imagem mesmo da editora. Nessa HQ, seus layouts de página são sensacionais, mas acaba-se descobrindo seu ponto fraco, seus retratos são péssimos (ou será que foi o Dan Adkins, arte-finalista, quem cagou tudo?).

Enfim, que belo gibi é este! Se deu vontade de conferir, ele saiu aqui no primeiro volume de Superman Lendas do Homem de Aço – José Luis García-López, de março deste ano. Antes disso, só a versão da Ebal, láááááá em 1979!

Superman contra Mulher-Maravilha (Superman Lendas do Homem de Aço – José Luis García-López #1), de Gerry Conway e José Luis García-López. Panini Comics, 74 pág, colorido, R$24,90.

Nota: 9

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