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Quando a aventura chegou de vez no quadrinho independente brasileiro!

O quadrinho independente brasileiro faz uma trajetória bem clara de se acompanhar: começa com quadrinhos confessionais, personalistas, passa solidamente pelo humor e chega até as biografias.

Nesses gêneros todos, assinala-se muito bem o pé no real: talvez em oposição ao quadrinho norte-americano mais típico (o gibi de super-herói), nossos autores abraçaram uma produção mais pé no chão na hora de colocar seu quadrinho autoral na rua.

Claro, iniciativas de aventura e ficção pura rolaram e rolam, mas nunca engrossaram o caldo dos independentes.
Mas a coisa parece começar a mudar. Em pouco mais de um mês eu li dois gibis de aventura independentes bem bacanas, de autores desconhecidos e que valem bem a pena.

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O primeiro deles foi Tinta Fresca – Destino traçado, que eu apoiei no Catarse. De Digo Freitas e Vinícius Gressana, Tinta Fresca nos leva a acompanhar Ícaro, um adolescente pixador (na quarta capa tá chamando de grafiteiro, mas a polícia leva pra delegacia… é pixador, ehehehehe) amargurado pela perda do irmão e a distância afetiva da mãe. A coisa muda quando um sujeito gordinho e porcalhão, Arthur, surge em sua vida: dá pra fazer mais, muito mais, com o talento artístico de Ícaro – basta que ele treine para tanto. Isso abre portas pra se descobrir a existência de um grupo de pessoas pelo mundo, chamado “portadores”, capazes de manipularem formas artísticas conforme suas necessidades: Ícaro aprende a fazer seus desenhos ganharem vida, enquanto Natália é capaz de manipular o som (aparentemente).

O gibi é perfeito? Não. Há marcas de um certo receio de não-continuidade (ele deixa ponta solta a la filme dos anos 1980: se rolar continuação, tem de onde tirar. Se não tiver, beleza assim mesmo), manifestos em soluções definitivas e apressadas, além de umas questões pouco definidas, como a questão dos portadores, que fica um pouco confusa com o desenrolar da trama. Mas tem potencial para maiores desdobramentos, para virar uma série mais longa, contínua. Digo (que eu já conhecia da coletânea Fliperamas, do ano passado) e Vinícius dividem a arte e o trabalho do roteiro. Inclusive, que bela descoberta é a arte do Vinícius Gressana! Firme e segura, fica a expectativa de ver mais trabalhos da dupla.

Nota: 7,5

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Pouco depois calhou d’eu ler Nocturne, de Fred Cassar. Creio que o gibi foi lançado de maneira totalmente independente, sem nem Catarse (o texto no Splash Pages que me fez descobrir o gibi não faz menção a isso). Nocturne conta uma história praticamente sem protagonista: temos Milo, um guitarrista solo, ainda principiante, num mundo em que monstros mecânicos surgem na calada noite preta e são enfrentados por grupos de músicos. Nos extras, Fred conta que a ideia do gibi surge ao pensar como seria se bandas de rock funcionassem como grupos de RPG do tipo fantasia medieval. O principal problema do gibi é este: essa relação grupo de RPG/banda de música é bem interessante, e promete um arejamento bacana, mas isso não fica muito claro no curso da HQ – na verdade, Nocturne parece que se passa num mundo como o de Scott Pilgrim, em que guitarras, teclados e baterias tem poder de fogo contra ameaças tecnobizarras.

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Cassar tem uma arte bacana, sólida também, sem vacilos no decorrer na trama. As cenas de ação são bem desenvolvidas, e há um excelente pano de fundo a ser elaborado. Inclusive, Fred Cassar deixa declarado sua intenção de continuar elaborando seu mundo ficcional: se não bastassem os “segredos” simplesmente assinalados nos extras, Nocturne já traz na capa um reluzente “Volume #1”. Tem mais pra vir por aí, e eu quero ver o que vem. Promete.

Nota: 7,5

 

É isso. Tem mais coisa rolando no Brasil nesse sentido? Tem demais! Tem a minha eterna promessa de uma resenha Mayara & Annabelle, tem o viado-bicha-dois-bichas do Leonardo Melo fazendo gibi-jogo pela Quadrinhópole… enfim. Tem coisa demais e tempo de menos. Rolando, vamos falando.

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