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A gente lemos: outra caralhada de HQs sem Bátema ou Homi-Aranha!

Enquanto há ônibus e congestionamento, há esperança!
Meu filho, em dez dias de busão eu já li mais HQ do que o segundo semestre do ano passado inteiro! Se dentro do balaio tivesse tomada e mesinha pra colocar o notebook, te digo que a minha dissertação já estava pronta!

Mas vamos às mini-resenhas de hoje!

He-Man e os Mestres do Universo – A origem da lenda, de James Robinson, Keith Giffen, Geoff Johns, Phillip Tan, Howard Potter e outros.
Panini Comics, 156 páginas, colorido, R$21,90.

Nota: 5,6

he-man

Não, eu nunca ponho fé nesses licenciamentos. Não depois do último, Diablo III. Mas porra, é o He-man, ídalo da infância, e tinha gente por aí falando bem. Me arrisquei, qual a razão de não o fazer? Economizar R$21,90? O meu salário de MdM me permite comprar dez dessas por semana!
O fato é que li e gostei. Na trama, um jovem lenhador loiro e de cabelo tigelinha passa a sofrer com estranhos sonhos de batalhas e reinados. Tudo piora quando uma estranha águia, azul, laranja e a branca o visita, tornando impossível seguir aquela vidinha de Rufus que ele vinha levando. Com isso, passamos a segui-lo passo a passo, enfrentando velhos inimigos do exército do Esqueleto, reencontrando aliados e recuperando sua memória. O desenrolar da trama é meio repetitivo e lembra jogo de videogame (uma fase de cada vez e um chefe de fase no final de cada uma, até chegar no chefãozão e zerar a parada). Do lado das artes, elas também não são maravilhosas, mas tudo junto gera um conjunto que diverte descomprometidamente.

Entretanto, He-Man e os Mestres do Universo – A origem da lenda se destaca como um dos materiais editoriais mais descuidados da Panini que eu já pus a mão. Erros grosseiros de Língua Portuguesa (concordância de número na página 15; “mais” em lugar de “mas”, à página 65 – isso dói pra cacete e segue nessa toada) e a completa ausência de uma nota explicativa quando a trama faz referência a eventos ocorridos em outras publicações – lá pelo fim da história, é dito que o Príncipe Adam foi vencido por Esqueleto após ser traído por Gorpo. Provavelmente isso aconteceu na série que a Panini publicou anteriormente, mas o senhor Bernardo Santana, editor deste encadernado atual, não se dignou sequer a fazer uma notinha de rodapé informando a ligação. Ainda mais considerando que a outra série foi publicada DEZ ANOS atrás!
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Noturno, de Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo
Editora Opera Graphica (2003), 52 páginas, preto e branco, R$21,90

Nota 6,5

Noturno

Recentemente fechei a série do caubói pouco convencional Ken Parker e, de brinde, o vendedor me deu os números da coleção Opera Mundi produzidos pela dupla Berardi e Milazzo (foram quatro volumes com eles). Ainda falarei de todos, mas começo por Noturno, sem sombra de dúvidas o mais fraquinho deles.
O álbum traz uma coletânea de contos curtinhos, sem qualquer critério que os agrupe (como tema, por exemplo). Na história título, acompanhamos em silêncio um estranho sujeito e sua abjeta missão. Em Onde Está Laura?, minha favorita nesse número, uma situação terrível começa quando um homem dá pela falta de Laura, sua companheira de camping. O Último Samurai traz a triste história de, bem, o último samurai. Já em Parker Anderson, Filósofo, a Guerra Civil americana serve de palco para que se reflita o ato de morrer. Em Um Estranho Casal, a dupla até nos apresenta uma história engraçada, mas o início pernóstico (até que a graça de fato surja) é muito chato. Por fim, em Vecchio Frac, a dupla faz uma homenagem pueril ao cantor e compositor italiano Domenico Modugno e a um velho ícone dos quadrinhos.
Diferente dos outros álbuns da coleção, Noturno nos traz um Berardi apagado, aparentemente juntando cacos de ideias do fundo da gaveta e, por isso mesmo, em alguns momentos desperdiçando o brilhantismo da arte de Ivo Milazzo. Nada aqui é arrebatador como o autor costuma ser, e parece feito meio sem vontade.
Vale a lida? Vale, mas não é imperdível não.
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Contrastes, de Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo
Editora Opera Graphica (2003), 52 páginas, preto e branco, R$14,90

Nota 8

Constrastes

Mais uma da dupla Ken Parker e que veio naquele pacotão. O esquema é o mesmo: pequenas histórias, sem nada em comum, com Berardi e Milazzo brincando de fazer quadrinhos, mas puxa! O resultado aqui é bem mais interessante! O álbum começa com a adaptação O Hino, uma homenagem singela à dupla composta por Laurel & Hardy, ou O Bucha e Estica, como dizem os lusitanos. Ou simplesmente Gordo e o Magro, como dizemos nós. Em A Conquista do México, Berardi usa um sacrifício ritual asteca para criar o pano de fundo de uma interessantíssima quebra de expectativa no leitor, proposta que ele leva adiante na pilantramente sexy As Sombras Chinesas. A seguir, Superfly, assim como Vecchio Frac do álbum anterior, faz uma homenagem à fantasia dos super-heróis – num mundo futurista, o Superman é a fantasia da fantasia. Fechando o álbum, a muda Triiiim traz todo o erotismo de se observar em silêncio, uma bela mulher se preparando para encontrar o amado. Se no álbum anteriormente citado faltou brilho, aqui ele se encontra com facilidade, da homenagem saudosa à safadeza fina, com Berardi e Milazzo sendo geniais. Simples assim. Mas falo mais dessa coleção numa resenha futura.
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A Iara – Uma lenda indígena em quadrinhos, de Silvino
Editora Nemo, 56 páginas, colorido, R$42,00.

Nota:0,75 (a impressão e o acabamento gráficos são bem bonitos)

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Quando este álbum da Editora Nemo aportou aqui no Chiqueiro, achei que seria um excelente presente para a pequena Sobrinha Porco. Afinal de contas, quadrinhos infanto-juvenis não são muito a praia aqui do MdM – a gente até resenha alguma coisa, mas precisa ser algo realmente especial, coisa que a HQ não parecia ser numa folheada (ou foleada? Nunca sei).
A tampinha pegou o álbum e começou a ler, de modos que, atentos como crianças ouvindo causos em volta da fogueira, a Senhora Porco e eu ficamos de cabelo e barba (respectivamente) em pé quando a narrativa começou com um “De todos os perigos da mãe terra, não há nenhum maior que os perigos da mulher”. Deixamos seguir pra ver até onde ia (de repente vinha aí um contraponto, né?), mas como a coisa seguia na mesma toada, ao fim da primeira página já arrumei outra coisa pra menina ler.

Alô Silvino! Alô Editora Nemo! Em pleno 2014 a gente precisa mesmo de HQs sobre como “Uma só mulher tem o poder de fazer uma guerra. Pôr povo contra povo, tribo contra tribo” ou “A mulher acalma o coração, mas, quando quer, também destrói o espírito”? Sério mesmo que ainda precisamos desse judaico-cristianismo mais podre? Depois, sozinho, continuei a leitura do álbum, somente para constatar a real infelicidade daquele texto de abertura (que depois é retomado ipsis literis no quadro final da HQ): na verdade, se em lugar de “mulher” o trecho falasse “paixão”, o sentido que é desenvolvido na trama estaria até muito melhor apresentado e presente. Não é uma mulher quem enlouquece o índio Ngoi-Tumre, visto que Moema não o desajuíza: o problema é a paixão arrebatadora, mágica, que ele sente por Iara (e que, por ser um ente fantástico, nem mulher de fato é mais). Não, não é puro politicamente correto: estamos falando de uma noção perniciosa que é repetidamente reiterada, e que aqui, sequer era necessária.

Mesmo sem essa derrapada, A Iara – Uma lenda indígena em quadrinhos passa longe de ser memorável. Tem seus furos, como o pajé surdo que age o tempo todo como se não o fosse (inclusive ele precisa lembrar o leitor de que é surdo na página 40), ou o inexplicado efeito Michael Jackson que transforma a índia fratricida sem nome em Iara, com sua pele branca e cabelos azuis. Do ponto de vista editorial, também falta cuidado: a qual faixa de público a HQ se destina? É infanto-juvenil mesmo (não, não tô preocupado com “as criancinhas lendo essas coisas”, pra mim toda leitura é válida desde que tenha um adulto do lado pra explicar. Mas nem todo responsável pensa assim, e o indicativo de público é uma ajuda e tanto)? Qual a diferença entre uma “cunhatã” (p.14) e uma “cunhã” (p.16)? Será que não valia uma nota de rodapé ou glossário?

Enfim, A Iara – Uma lenda indígena em quadrinhos, é uma HQ bonitinha mas ordinária, que evidencia, com muita clareza, uma pouca maturidade do autor como narrador e a falta de uma leitura editorial mais cuidadosa. Ficou devendo.
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Bem, é isso aí, negada! Mais pra frente tem mais, que por hoje já deu!
Bjundas!

Sobre Poderoso Porco

O mar não tem cabelos. Eu também não.

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