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Liga da Justiça: o que deu errado?

Antes de mais nada, o que este texto NÃO É:

  • Uma resenha de Liga da Justiça (ainda não vi o filme);
  • Um texto imparcial (porque eu sou fã de quadrinhos, em particular da DC, desde criança, e estes personagens são importantes pra mim desde sempre, logo, há um apego emocional inevitável);
  • Um comentário sobre os problemas da produção (embora, obviamente, não tenha como não mencionar essa e outras questões);
  • Sobre a bilheteria nacional (Liga teve uma pré-estreia recorde no Brasil, mas isso não representa o contexto todo)
  • Sobre a qualidade do filme, ou sobre o dinheiro; é sobre o que a bilheteria pode representar num cenário mais amplo.

Dito isso, vamos ao texto.

 

Liga da Justiça acaba de estrear e os números são, bem… números. Com cerca de 96 milhões no seu primeiro fim de semana (nos EUA), o filme ficou atrás de TODOS os outros filmes da DC dentro deste universo compartilhado. Sim, isso mesmo: Liga da Justiça abriu abaixo de Mulher Maravilha (103 mi), Homem de Aço (quase 130 mi), Esquadrão Suicida (133 mi) e Batman v Superman (166 mi). Mundialmente, os números foram melhores (185 mi), mas não muito, especialmente se compararmos com Batman v Superman (256 mi), que tinha apenas 3 dos personagens que aparecem em Liga. E, se formos para o lado da concorrência, não só Thor (um personagem B em comparação com os pesos pesados da Liga) fez bem mais nos EUA no seu primeiro fim de semana (quase 123 mi), como não fez muito menos mundialmente (quase 110 mi).

Embora 96 milhões pareça um grande número para nós, meros mortais (especialmente sendo apenas nos EUA), se colocados em contexto ele representa uma péssima notícia para o filme e para os filmes da DC de uma forma geral. A previsão é que Liga da Justiça chegue aos 700 milhões mundialmente. Thor: Ragnarok ultrapassou 700 milhões neste fim de semana (seu terceiro fim de semana em cartaz). E, se você tiver problema em comparar um filme que é continuação com um que não é (embora tecnicamente Liga seja uma continuação direta de BvS), vale lembrar também que, em 2012, Os Vingadores fez 207 milhões na estreia só nos EUA (185 no resto do mundo, exatamente como Liga)

O que é que deu errado? Como é que um filme como Liga da Justiça, que reúne os personagens mais populares do ocidente (e discutivelmente do planeta), faz menos bilheteria que um personagem que, há cerca de 5 ou 6 anos atrás, quase ninguém conhecia?

É fácil colocar a culpa na qualidade do filme. Mas isso não se sustenta. Primeiro porque, no fim de semana de estreia, o público não tem nada a não ser o que foi divulgado sobre o filme (os trailers, a sinopse, etc) para julgar sua qualidade. É exatamente por isso que hoje cada vez mais os estúdios contam com um primeiro fim de semana explosivo para garantir retorno: o primeiro, depende do quão bom foi o marketing e o hype; os próximos é que vão depender do quanto as pessoas que foram no cinema gostaram, recomendaram para outros e decidiram ver o filme mais de uma vez. Então, mesmo que o filme fosse/seja ruim (não sei dizer porque ainda não vi), isso não é justificativa (até porque Esquadrão Suicida, que é abismalmente ruim, teve um fim de semana de estreia muito bem sucedido).

Também não dá para colocar a culpa nas resenhas. A verdade é que Rotten Tomatoes, Metascore, etc, são métricas que apenas o pessoal mais dedicado usa. O público em geral (que representa a grande maioria destes milhões do primeiro fim de semana) muitas vezes nem conhece esses sites. É só lembrar, mais uma vez, de BvS e Esquadrão Suicida: massacrados pela crítica, mas com um fim de semana inicial estrondoso.

Outra opção seria as tretas que rolaram nos bastidores. Quem acompanha essas coisas sabe como a produção do filme foi turbulenta, com troca de diretores, boatos sobre a saída do Ben Affleck, refilmagens, etc. Mas isso cai no mesmo bonde das resenhas: apenas os mais dedicados sabem o que está rolando. O público em geral vai saber, no máximo, do fica-não fica do Affleck e, talvez, do Snyder ter saído por conta de uma tragédia pessoal. Mas nenhuma dessas coisas teria peso suficiente para afastar o público. E, de novo, Esquadrão Suicida também sofreu com boatos e tretas de bastidores e isso não afetou em nada a bilheteria do filme.

Então, que opção nos resta? Bem, posso pensar em algumas possibilidades:

1. A sistemática perda de confiança, filme a filme

Quando Homem de Aço saiu, foi relativamente bem recebido. Mesmo com críticas divididas, por assim dizer, o público aceitou bem essa nova interpretação do Homem de Aço. Então não é como se o público “civil” rejeitasse uma nova visão dos personagens ou o tom mais sombrio (que normalmente são as desculpas que a Warner e o Snyder davam para o porquê de BvS ter sido um fracasso de crítica). O estrondoso fim de semana de estreia de BvS é prova de que o público estava disposto a abraçar esta visão mais sombria dos personagens. O problema é que não basta ter uma boa ideia; é preciso saber executá-la bem.

O fato de BvS e Esquadrão Suicida serem (em termos de roteiro e edição) uma completa colcha de retalhos pode não ter ferido os filmes individualmente, mas feriram o universo que estavam tentando construir no médio prazo. E a confiança do público começou a ir embora. Não por causa da visão desse universo, não por causa do clima sombrio, não por causa da falta de piadas. Por causa da falta de qualidade do produto. Simples assim.

 

2. O cagado projeto conceitual/narrativo do universo

A ideia, inicialmente, era simples, mas tão boa quanto qualquer outra: a partir de BvS, a Warner começaria a expandir seu universo, mostrando que outros personagens o co-habitam. Até aí, tudo bem. Mas o projeto do Snyder era um pouco estranho, pois definia que Superman continuaria sendo digno de desconfiança da população e que a única maneira das pessoas o verem diferente era ele morrer. Para piorar, a única justificativa que Snyder via para reunir a Liga da Justiça era que, com a morte do Superman, Batman decidiria que precisaria reunir “soldados” para alguma batalha que ele acha que vai acontecer por causa de um sonho que ele teve que talvez não seja um sonho e sim o Flash que voltou no tempo para avisar a ele que o Superman ia ficar do mal. Hein?

Não temos como saber com certeza como a versão completa do Snyder (sabemos que a versão que saiu pro cinema foi alterada em pelo menos um terço) seria, mas se levarmos em consideração algumas notícias, a ideia era que Superman ressuscitasse e ficasse mal durante quase todo (ou todo) o filme, voltando a ser bonzinho talvez apenas na parte 2 (lembram quando foi anunciado um Liga da Justiça – Parte 2? Bons tempos…). Então, teríamos o primeiro filme da liga da Justiça: a) sem o Superman como membro fundador e b) Com o Superman de INIMIGO da Liga. Um conceito realmente meio difícil de engolir (e o pior é que, se essa ideia surgisse mais adiante, lá pelo segundo ou terceiro filme da Liga, certamente a percepção seria muito diferente).

Além disso, o fato desse conceito necessitar que Superman morresse em BvS talvez tenha levado a outro problema…

 

3. Marketing amarrado

Um filme que tem 5 personagens, mais o Superman. Só que o Superman está morto e dizer que ele vai aparecer no filme acaba sendo um spoiler. Ao mesmo tempo, a morte do Superman é algo que permeia todo o filme e é impossível não falar sobre isso na divulgação. Então, a única forma de divulgar o filme da Liga é SEM o Superman. Mais ou menos.

Ao mesmo tempo, é preciso dar alguma dica de que o Superman estará presente no filme, e insinuar que talvez ele retorne, afinal esse é um grande chamariz para o filme, especialmente para quem acompanhou BvS até o final e quer saber o que era aquela terra flutuando no caixão do Super. A solução: vender o filme apenas com Batman, Mulher Maravilha, Aquaman, Flash e Ciborgue, mas  colocar o Superman em um ou outro banner/pôster para cobrir terreno, além de mostrar o Superman só no último trailer – mas não é ele vivo de verdade; é apenas um sonho da Lois.

Some tudo isso ao fato de que o retorno do Superman não era, de fato, nenhum spoiler (até porque o próprio final de BvS deixa claro que ele vai retornar – o que, diga-se de passagem, mina todo o sacrifício que ele fez no filme), e temos uma comunicação esquizofrênica que não sabe se dá destaque para a equipe sem Super ou com Super, se dizem que ele vai aparecer ou não.

Existe um motivo pelo qual a publicidade usa o termo “identidade” para se referir a um conjunto coeso de materiais de propaganda dentro de um mesmo projeto conceitual. A divulgação do filme da liga até tinha identidade visual, mas faltava identidade e coesão conceitual, o que pode fazer o público ficar confuso – e público confuso é público perdido.

Eu poderia também incluir a mudança da identidade visual (especialmente as cores) do marketing conforme o tempo foi passando e o próprio filme, internamente, foi sendo alterado. Mas não acredito que isso tenha tido algum impacto negativo (Esquadrão Suicida sofreu o mesmo e isso não afetou sua bilheteria – e, se afetou, foi positivamente).

 

Mas por que se preocupar com a bilheteria?

Filme bons com baixa bilheteria surgem o tempo inteiro, assim como filmes ruins com altas bilheterias. Porque Liga da Justiça seria um caso à parte? Bem, um dos motivos pra mim é pessoal. Eu leio quadrinhos há quase 30 anos e, nas páginas, sempre fui mais fã de DC do que de Marvel (entre meus 5 personagens de quadrinhos favoritos, só há 1 da Marvel; o mesm para a lista de superequipes).

Eu nunca imaginei ver a Liga da Justiça em live action simplesmente porque achei que isso nunca fosse acontecer. Mas eu sabia que, se acontecesse, seria um sucesso estrondoso. Imagina, nunca se colocou os 7 (considerando os originais) personagens mais conhecidos dos quadrinhos juntos num mesmo filme. Seria simplesmente um evento inesquecível!

O fato do filme da Liga estrear abaixo de Esquadrão Suicida e de Thor, me incomoda profundamente, muito mais do que se o filme fosse/for uma merda completa. Ser uma merda é algo que dá pra consertar; é só fazer um outro filme, e outro, e outro, até acertar. Agora, uma bilheteria fraca (em consideração ao que a marca representa) é um indicativo de que o público não tem (e se já teve, perdeu) a confiança nos filmes da DC. E nem Mulher Maravilha foi capaz de recuperar essa confiança. É um destino terrível para personagens com os quais cresci e com os quais tenho uma relação tão profunda. Para mim, é uma derrota moral.

“Ah, mas você tá reclamando disso e nem foi ver o filme?”. Sim, porque o fato de eu achar isso péssimo não significa que eu considere o resultado injusto. Como aponto nesse texto, a Warner apenas está colhendo o que plantou. É triste, mas é parte do processo.

Para além dos meus sentimentos, há também a preocupação do que isso significa para o futuro dos filmes da DC. Há um bom tempo a Warner tem lutado para conseguir programar uma lista de filmes futuros coesa (a primeira, jogada numa reunião com executivos, vazou, animou muita gente e boa parte dos filmes caiu por terra) e os anúncios de filmes da DC hoje em dia são feitos mais de boatos do que de anúncios oficiais.

Como uma empresa antiga com uma mentalidade antiga, a Warner quer achar uma solução simples para seu fracasso. Assim como acham que só precisam encontrar a fórmula certa para chover dinheiro nos seus bolsos, também acham que só precisam encontrar a fórmula do que não devem fazer. Mas isso se provou infrutífero. Deixar sombrio como os Batman do Nolan não adiantou. Deixar as cores mais claras não adiantou. Colocar piadas também não. Fazer mais cínico (BvS), não deu. Fazer mais inocente (MM), também não (o filme fez sucesso, mas o sucesso não se expandiu para a Liga, que também tem a Mulher Maravilha). Fora isso, Liga da Justiça supostamente custou 300 milhões (por conta das refilmagens), sem contar marketing, então vai precisar de no mínimo o dobro disso para se pagar – o que significa, de acordo com as projeções, que o lucro será bem aquém do esperado). Me pergunto o que a Warner vai tentar a partir de agora.

O fim de semana decepcionante de Liga da Justiça também pode indicar uma certa fadiga aos filmes de super-herói, algo que tem sido falado há um tempo. Embora eu não ache que esse seja o caso (é só comparar Thor: Ragnarok e Liga, que saíram no mesmo mês), é bom ficarmos de olho nos sucessivos fracassos de crítica da Warner, porque uma maçã podre pode prejudicar o cesto inteiro de maças. Não necessariamente em termos de qualidade, mas se o público “civil”, que não distingue entre Marvel e DC, começar a ficar de saco cheio com os filmes da Warner/DC, pode fazer uma generalização expandindo essa insatisfação para o gênero dos filmes de super-herói como um todo, e aí todos os filmes (inclusive os bons) podem sofrer com isso, sejam eles da Disney, FOX ou outro estúdio.

Sem contar que, a cada fracasso de personagens conhecidos do público em geral, cresce a cautela dos estúdios em investir em personagens menos conhecidos e editoras que não sejam Marvel ou DC. Com exceção do Millarverso (que foi comprado pelo Netflix e não deve demorar a aparecer adaptações), outras editoras menores podem nem ter chance de ir para as telas, seja do cinema ou TV, porque os estúdios podem começar a ficar com medo de investir em algo pouco conhecido.

Por enquanto, não há sinais de que os filmes de super-herói vão acabar tão cedo (nem que os filmes da DC estejam condenados: Aquaman sai ano que vem e certamente teremos um segundo Mulher Maravilha) e, com sorte, outras adaptações de personagens menos conhecidos virão. Mas o fim de semana de estreia de Liga da Justiça bem abaixo das expectativas não é algo a se ignorar, nem algo que os haters devam comemorar. É, sim, algo que todos nós, que gostamos desse tipo de filme, devemos ficar de olho.

Sobre Algures

Oi, meu nome é Algures e eu tenho 35 anos (teria se estivesse vivo). Compartilhe esse post com 20 pessoas e minha alma estará sendo salva por você e pelos outros 20 que receberão. Caso não repasse essa postagem, vou visitar-lhe hoje à noite. Dia 15 de Julho, José resolveu rir desse post, uma noite depois ele sumiu sem deixar vestígios. O mesmo aconteceu com Maria dia 18 de Outubro. Não quebre essa corrente, por favor, a não ser que queira sentir a minha presença (atrás de você).

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