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[A gente lemos] Jessica Jones: Ponto Cego (com spoilers)

Em 2019, Jessica Jones atingiu a maioridade.

A criação de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos fez sua estreia na gringa em novembro de 2001, em Alias #1, e de lá em diante entrou pra história do universo Marvel, literalmente.

Nessas alturas do campeonato, depois de uma inserção na Netflix com relativo sucesso, é bem pouco provável que você não saiba quem é Jessica Jones (mas se não sabe, uns amigos nossos que não sei se você conhece, publicaram um livro chamado Quem é Jessica Jones).

Pra quem lia quadrinhos Marvel/DC há bastante tempo, o surgimento de Alias e sua protagonista foi um alento. A série tinha tudo aquilo que acabou se tornando a marca registrada do velho Bendis (naquela época, ainda não velho): uma dinâmica muito própria, diálogos arrasadores e uma imersão muito poderosa no aspecto humano de um universo de super-humanos e suas cuecas por cima das calças (ou dos ferros).

Quebrando a principal lei da física do universo dos super-heróis, Bendis (e Gaydos) nos permitiu ver uma personagem surgir, amadurecer, encerrar ciclos, mudar de status, ocupar outro lugar no cenário e começar novas fases da vida. Quando encerrou sua passagem pela personagem (com ares de encerramento mesmo) em 2016 (aqui publicado em Jessica Jones – O retorno do Homem-Púrpura, em março de 2019), Bendis tinha nos guiado por uma parte importante da “vida” da personagem, um tanto (muito tanto) mais humana do que a maioria dos seus companheiros heroicos.

Mas eu não sei se você sabe, a Marvel é uma indústria. Uma gigante capitalista do mal que obcecada com dinheiro e poder, e não ia deixar uma personagem tão boa como a Sra. Cage descansar em paz. The show must go on, com Bendis ou não.

E a gente?

A gente é mau também, e quando eles lançam alguma coisa dos nossos personagens favoritos, a gente corre igual gado pra comprar.

Mesmo sentindo o cheirinho de gibi ruim?

Mesmo sentindo.

E pior: A GENTE AINDA LÊ!

#Putamerda.

Em Ponto Cego, escrita por Kelly Thompson, a trama começa justamente de onde Bendis deixou: Jessica e Luke Cage estão casados e têm uma filha, Danielle; a SHIELD foi pro saco; o Homem-Púrpura foi pro saco; e Jones continua com seu escritório de investigações privadas, o Alias.

Já de cara há um cadáver de mulher que brota sem mais nem porquê no meio do escritório, e policiais tão rápidos quanto eficazes levam Jones presa imediatamente (o que dá uma boa brecha para que Matt Murdock, o adEvogado, dê as caras). Daí a Jessica reconhece o cadáver da moça (é uma antiga cliente) e, enquanto está estudando os arquivos do caso, BLAM! toma um tiro na nuca e morre.

Uma imagem contendo pessoa, interior

Descrição gerada automaticamente

Mas ela não morre, acorda no hospital vivinha da silva e quer saber que merda é essa. Vai ao Dr. Estranho (MCU style) para consultar se a bala era mágica ou coisa do tipo (não era) mas, em paralelo, um monte de mulheres low power (como a Coelha Branca e Elsa Bloodstone) também são assassinadas (ou tentadas) como Jessica. Ah, a Mary Jane também, numa subtrama mais gratuita que bala de hortelã no lugar do troco, para poder fazer o Homem-Aranha dar as caras no gibi (a gente fica sabendo que ela morreu e cinco páginas depois ela já tá viva de novo, de uniforme “Face it, tiger” e tudo mais). ¬¬

Uma imagem contendo pessoa

Descrição gerada automaticamente

Aí a gente fica sabendo qual é que é da trama, uma cópia preguiçosa (das igualmente preguiçosas) continuações de Desafio Infinito (Guerra e Cruzada Infinitas): a cliente de Jessica Jones, Dia Sloane, desenvolveu um poder bizarro de dobrar a realidade para tudo o que ela desejar acontecer. Ela tem um namorado meio abusivo, e ao invés de desejar que ele seja um cara legal ou que vá catar coquinho na estrada, ela deseja que ele tenha os mesmos poderes dela (CLARO, NÉ?) e ele, com os poderes dela, deseja que todo o mau seja expurgado de si. TÃDÃÃÃÃÃÃÃ: eis que surge uma versão má do namorado abusivo, com o poder de fazer o que quiser e que decide matar a ex-namorada, mas como ela já morreu (lembra que ela apareceu morta no escritório?), decide matar todas as mulheres que se colocaram no caminho dele (ou dela) ou que recusaram as investidas sexuais dele.

Sério. É isso.

Uma imagem contendo pessoa, parede, interior, mulher

Descrição gerada automaticamente

Jared, o namorado, em sua versão mata as mulheres, que são ressuscitadas pela Dia ou pelo Jared Pena-de-Pavão-de-Krishna.

Sério, a história é issaí. É um queijo suíço de tanto furo (faça um teste rápido: sabendo dos poderes de Dia e Jared, quanto da trama não teria acontecido se eles simplesmente usassem a merda do poder de um jeito minimamente óbvio? Pois é…)

Se não bastasse esse, er… bem… “roteiro”, a arte do desenhista regular da série, Mattia de Iulis, é medonha. Uma arte digital genérica, com cara de arte digital, feia e preguiçosa. E a coisa mais irritante de todas: Jessica Jones é a personagem principal. Seu marido e sua filha criança são parte do núcleo mais básico da personagem. E o que acontece? Iulis não sabe desenhar criança! Danielle cresce e encolhe conforme o personagem com quem ela interage!

Participação especial do Capitão América da Carreta Furacão e daquela testuda da Andrea Assis como Capitã Marvel.

Repare a sequência de Jessica hospitalizada: Danielle tem uns dois anos no colo da Capitã Marvel, uns sete/oito quando abraça a mãe na cama e outra vez uns dois anos, quando sai de cena com Luke Cage. É constrangedor.

Isso tudo aí acontece em Jessica Jones: Blind Spot 1 a 5 (a informação na quarta capa do encadernado diz que esse volume reúne as edições 1 a 3, mas no miolo são reproduzidas as capas de 1 a 6).

Aí na edição #6 (ou 3?) Mattia de Iulis sai pra levar sua avó no jiu-jitsu e o brasileiro Márcio Takara assume. A situação melhora sensivelmente, porque o ex-Territorianos (vrau! Fui longe agora) é muito superior ao desenhista regular, traz fluidez e naturalidade ao gibi, mas isso não é suficiente para dar um alento mínimo à parada.

Essa última HQ é só uma encheção de linguiça para fazer transição – Jessica e Luke estão tentando organizar o aniversário de um ano (ah, ela tem UM ANO? Carái) de Danielle, mas altas confusões começam a rolar, inclusive um ataque, no apartamento do casal assim do nada, de um homem-tubarão gigante. Sério. Desculpa por dizer isso de novo.

O desfecho dessa história, com Danielle ficando roxa (depois de um diálogo entre Luke e Jessica sobre ela ter – ou não – trauma da cor roxa pós-Homem-Púrpura) é assustadoramente constrangedor. Não sei o que pensar. Era pra ser um gancho, para a gente ficar com um “MEU DEUS, O QUE FEZ A FILHA DELA FICAR DA COR QUE ELA MAIS ODEIA? SERÁ QUE ELA É FILHA DO KILLGRAVE? ELES VÃO NO PROGRAMA DO RATINHO FAZER DNA? ELA É FILHA DO KILLGRAVE COM O LUKE CAGE? MEU DEEEEEEEUS”, mas a gente pode é ficar, na melhor das hipóteses, constrangido (na pior ficamos putos mesmo).

E pra ajudar, eu que não tenho acompanhado sistematicamente o universo Marvel, ainda fiquei boiando em algumas coisas: quando Odinson voltou a ser o Thor? Desde quando a Mulher-Hulk é tapada como o Hulk de antigamente?

Enfim, não sei se você sacou, mas esse gibi é ruimdemaisdacontasô. Coloquei todos os spoilerezes possíveis aqui justamente pra ver se te desincentiva a gastar dinheiro com isso. Sei lá, junta os vinte e poucos reais e doa pra caridade. Aposta no campeonato de arremesso de catota da sua rua, sei lá. Qualquer coisa.

Pra não dizer que não serviu de nada, ele me fez dar conta de que Jessica Jones é tão boa e tão ruim quanto um outro personagem que eu gosto muito, que é o senhor John Constantine. Assim como daquele bruxo safado nada pós Hellblazer presta, tenho a impressão que Jessica Jones fora de Alias vai no mesmo caminho, valendo pouco menos do que o que o gato enterra.

Tô fora.

Jessica Jones: Ponto Cego, de Kelly Thompson, Mattia de Iulis e Márcio Takara. Editora Panini, 140 páginas, setembro de 2019. R$22,90.

Nota: 2.   

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