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A gente lemos: I am not okay with this (com MUITOS SPOILEREZES)

ATENÇÃO: Este texto discute, ainda que tangencialmente, questões sensíveis como depressão e suicídio.

Colocada em pré-venda via Catarse no começo deste ano (a editora Skript trata suas campanhas de lançamento no Catarse como pré-vendas), I am not okay with this, de Charles Forsman, tinha como grande atrativo ter dado origem a uma série da Netflix de mesmo nome. 

Uma série que eu não vi, então não foi por aí que a “campanha” me pegou (uso aspas em “campanha” porque a forma de trabalho da editora não configura realmente em “campanhas de arrecadação”).

Me pegou na premissa e num outro validador externo: na gringa, I am not okay with this foi publicado pela Fantagraphics, uma editora que, não me agradando sempre, pelo menos é garantia de uma certa vanguarda nos quadrinhos estadunidenses.

Então, bora falar da premissa, que vou recortar exatamente como está na “campanha”:

I am not okay with this é um crônica sombria sobre a vida – nada tranquila – de Sydney, em um bairro pobre da Pensilvânia. Acompanhamos sua dificuldades diárias e a confusão típica da adolescência na descoberta da sexualidade. Tudo ficando mais complicado com a aparição de…superpoderes!?
Sem o apoio da família, Sydney encontra ajuda com o vizinho Stan, um fã de quadrinhos. Ele se torna seu improvável mentor e acaba se apaixonando. Mas há um outro problema: Sidney gosta realmente da amiga Dina.
O carisma dos personagens, a história, tudo nos envolve num roteiro que arranca risos e lágrimas. O traço minimalista de Charles Forsman torna ainda mais rica e marcante a experiência de leitura.

Isso tudo, aliado a um traço underground, chamou a minha atenção. Repare: exceto pelo “um[a] crônica sombria sobre a vida” na primeira linha da sinopse, toda a descrição parece falar de um filme do John Hughes (A garota de rosa-choque, Clube dos Cinco, Curtindo a vida adoidado). Essa sinopse é repetida na Amazon, com uma revisão textual tosca, sem uso de letras maiúsculas ou espaçamentos pós pontuação e enfocando a relação com a série de Tv (“Agora você pode saber o final!” e “Leia a graphic novel que inspirou a série de sucesso na netflix, estrelada por sophia lillis!”).

Pois é. Mas eu não estou nada okay com esses resumos.

E vamos ao próprio objeto livro de quadrinhos pra demonstrar isso:

Página 02 da edição impressa
Página 178 da edição impressa.

I am not okay with this é um gibi zero festivo. Pelo contrário, como você pode calcular pelos avisos acima. Essas exortações de atenção, no caso do Catarse, estão quase no rodapé da página da “campanha”, depois de informações de envio e antes da obrigatória descrição do orçamento.

O quadrinho é indicado para leitores adultos e pode afetar pessoas depressivas ou com tendências autodestrutivas.

Isso não está nas capas do gibi (que é vendido lacrado) ou, enquanto escrevo esta resenha (na manhã do domingo 19/09/2021), nem na descrição do produto na Amazon, que é o grande ponto de venda. E essas são informações fundamentais.

I am not okay whit this é um gibi depressivo em que a protagonista, certa de que o mundo será melhor sem ela, decide se matar ao final da história. E o faz, explicitamente.

O aviso indicativo no gibi que estava mais à mão: “A Tempestade”, da Liga Extraordinária. Zero spoiler.

Isso é ainda pior se consideramos o conjunto da obra: o gibi de Charles Forsman é uma porcaria. É banal, os personagens, suas personalidades e dramas são superficiais. Sidney, a protagonista, é uma adolescente que perdeu o pai recentemente, gosta de uma garota que não gosta dela, não se relaciona bem com a mãe e perde o controle quando é contrariada. A única coisa que a faz diferente de absolutamente qualquer outro adolescente no universo é que no caso dela, “perder o controle quando é contrariada” quer dizer ter poderes telecinéticos que afetam quem a está contrariando, podendo até matar.

Forsman não aprofunda em absolutamente nada dessas coisas todas e, não tendo aprofundado, coloca a protagonista para se matar ao final da história.

Uma página da edição em italiano, extraída do Catarse da edição.

Correndo o risco de soar um velho moralista, mas consciente disso, te pergunto: isso não deveria estar na capa do gibi ou na sinopse do ponto de venda de maneira clara e imediatamente visível? De que se trata de uma obra para adultos e que aborda temas sensíveis como automutilação e autoextermínio?

“Ah, Porco, mas isso seria dar um spoiler! Vai estragar a experiência de leitura”

Vamos a um exercício de imaginação: você é o pai ou a mãe, ou o tio, a tia, a madrinha, o padrinho, enfim, alguém que convive com um/uma adolescente. Você está navegando na Amazon e se depara com esse produto. Pode ser que esse/essa adolescente que você convive até tenha assistido e gostado da série, que dizem ter um tom muito diferente do quadrinho. Não me parece muito fantasioso pensar que você cogitaria presenteá-lo/a com o quadrinho, principalmente para que ele/ela saiba o fim da história, já que a série foi cancelada pela Netflix. Volta o velho moralista: você não acha importante que informações sobre faixa etária indicada e sensibilidade do tema deveriam estar disponíveis, de maneira clara e imediatamente acessíveis?

Perceba: eu não tô sugerindo que o título não deveria existir ou ser comercializado. Eu estou afirmando, com clareza, que essas informações não podem ser escondidas do consumidor, elas não são banais. Se mesmo assim você decidir presentear seu/sua adolescente, foi uma decisão esclarecida que você tomou. E segue o barco, você sabe e está assumindo a responsabilidade.

Estamos no setembro amarelo. O momento do ano em que, ao menos em tese, nos preocupamos coletivamente sobre o problema do autoextermínio. Quando cliniquei, já atendi pessoas com ideação suicida, adolescentes inclusive. Adolescentes (e jovens adultos também, acaba sendo uma questão mais de maturidade do que de recorte etário) tendem a superdimensionar suas emoções momentâneas e achá-las definitivas. O mesmo garoto que se automutila aos 14 anos, terá vergonha ao ser perguntado sobre aquelas cicatrizes aos 32. Mas, aos 14, ele não pensou muito nisso. A vida lhe parecia REALMENTE terrível e sem perspectiva de melhora porque ele não conseguia se comunicar satisfatoriamente com os pais ou tinha tomado um toco da garota/garoto por quem era perdidamente apaixonado.

Comento isso como profissional, mas você não precisa ir muito longe para ver isso: olhe para si mesmo com honestidade. Quantas vezes, na sua adolescência, você não pensou que estava diante do fim do mundo? E quanto tempo demorou até que você se desse conta do que diz aquela letra dos Engenheiros do Hawaii de que “dores que ninguém nunca sentiu é o sentimento mais comum” e que a manhã depois do fim do mundo é igual às outras? Demora pra gente se dar conta. Para amadurecer demora.

E você pode questionar se eu estou afirmando que produtos culturais influenciam comportamentos e que no fim isso vai levar ao velho discurso de que jogos, filmes, quadrinhos são a causa da violência e da delinquência.

Sim, eu estou afirmando isso :  produtos culturais influenciam comportamentos. É sabido por todo mundo. Não é uma relação de causa e efeito como dizem os moralistas, mas que há influência, há. Não sabemos exatamente de que natureza ou qual a intensidade dessa influência, mas que ela existe, existe. Por isso há classificação indicativa (que é diferente de censura). Por isso se evita noticiar suicídios ou, sendo necessário fazê-lo, nunca se dá detalhes de formas e procedimentos. Talvez você já tenha ouvido falar do “Efeito Werther”, que recebe o seu nome em razão do livro do séc. XVIII “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe. Vai por aí. Inclusive, em razão desse não saber exato da natureza e intensidade dessa influência (se é que será possível um dia saber), é que observamos o efeito oposto, quando uma determinada produção provoca no leitor o sentimento exatamente oposto àquele que imaginávamos que provocaria: diante de uma produção violenta, o sujeito pode usar daquilo para repudiar a violência. Uma pessoa com ideações suicidas, diante de um gibi sobre suicídio, pode ressignificar suas crenças. Em certa medida, isso é o que Freud chamou de “sublimar”: dar vazão mais aceitável a um impulso danoso por meio da produção e/ou fruição artística (Citei Freud apesar de não ser psicanalista e ter algumas críticas ao campo. Mas aqui uso com comedimento o que ainda me parece algo observável em linhas gerais).

REPITO: não estou dizendo que obras sobre esses temas não devem ser feitas ou publicadas. Estou dizendo que é preciso fazê-lo com responsabilidade, visto que uma obra pode causar efeitos individuais, tanto desejáveis quanto indesejáveis. Por isso seu consumo precisa ser uma decisão informada e esclarecida.

Alguém precisa arcar com a responsabilidade dessa decisão: se eu, produtor, informo ao meu consumidor do que se trata minha obra, quem decide se encara aquilo ou não é ele. Se eu, produtor, não informo ao meu consumidor do que se trata, quem decide sou eu. Logo, quem assume a responsabilidade sou eu.

Para mim, a Editora Skript foi irresponsável com a forma de publicação. Não há maneira de dourar essa pílula: ao supostamente priorizar supostamente a experiência de leitura ante o compromisso com o leitor, a editora optou pelo valor menos importante na equação. Errou feio. 

ATUALIZAÇÃO (antes do post ir pro ar. Vai entender esse MdM…)

No finalzinho da noite de domingo, a Skript informou que vai alterar a sinopse do título na Amazon. Uma decisão importante e responsável, sem dúvida nenhuma. Que ajude nas próximas publicações (não só dela).


E isso tudo a despeito de toda a qualidade da obra que, como já disse, particularmente achei bem, mas beeeem ruim mesmo. Pobre de tudo. Uma mistura tosca e sem talento de Ghost World com Rampal, o paranormal. Tão pobre que o grande ganho que tem a nos dar é essa discussão paralela sobre responsabilidade editorial…

I am not okay with this, de Charles Forsman. Editora Skript, julho de 2021. 184 páginas, preto e branco, R$ 89,00.
Nota: 0/5.

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