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A FOX é da Disney. E agora?

É difícil falar de outra coisa essa semana que não seja a recente compra da 21th Centrury FOX pela Walt Disney Company (e Star Wars: Os Últimos Jedi). Para os analistas, é a grande corporação jogando todas as suas cartas pra continuar no campo enquanto o jogo muda; para a concorrência, é um grande motivo de preocupação, uma vez que, sem a FOX, a Disney já batia recordes de arrecadação de bilheteria ano após ano; para os funcionários, é aquele medo de ser demitido; para os nerds, é o sonho realizado de ter X-men, Deadpool, Quarteto Fantástico, Galactus e Surfista Prateado no MCU.

Mas o que, de fato, muda com essa aquisição? Bom, num primeiro momento, NADA. Essa aquisição pode ser, inclusive, REVERTIDA.

 

Os trâmites legais

Diferente do Brasil, o governo americano parece ser um pouco mais rígido com certas questões, em particular com a fusão de grandes empresas e a preocupação com monopólio. Por isso, essa compra ainda precisa passar pelo crivo federal, que tem uma coleção de leis antitruste para manter a (suposta) competição saudável em benefício dos consumidores.

O Departamento de Justiça americano costuma ficar mais preocupado justamente quando asfusões são entre duas grandes companhias doo mesmo ramo, como é o caso da FOX e da Disney. E não pensem que molhar a mão dos políticos funciona por lá (quer dizer, funciona, mas nem sempre). Recentemente, o governo impediu* que a At&T comprasse por 85 bilhões (e existe tudo isso de dinheiro no mundo?) o grupo Time-Warner.

E o caso da Disney é semelhante. É o que eles chamam de “fusão horizontal”, ou seja, duas companhias que são competidores diretos. Ao se fundirem, elas eliminam um competidor do mercado, e isso levanta o alerta do Departamento de Justiça americano, porque pode ser encarado como uma tentativa de monopólio. E, se o governobloquear a fusão, não é só cada um ir para o seu lado e fica tudo pode isso mesmo: caso a fusão não ocorra, a Disney ficou de pagar 2,5 bilhões de multa para a FOX.

Então, caso o Departamento de Justiça decida que a Disney tá com muito poder nas mãos, eles podem bloquear a compra. É claro que a Disney já passou por isso ao menos 3 vezes recentemente, com a Pixar (que foi comprada por 7bi), a Marvel (por 4 bi) e a Lucasfilm (por 4bi) e ficou tudo bem. E também vale lembrar que a Disney é a empresa que até hoje consegue costurar e alterar a legislação para garantir que o Mickey não caia em domínio público. Então eu não creio que a lei antitruste seja uma grande ameaça a essa fusão.

Nota: só as dívidas da FOX, que a Disney comprou junto (13bi) dá quase o valor de compra da Pixar, Marvel e LucasFilm somadas!

 

O que, exatamente, a Disney comprou?

Algumas coisas continuam com Rupert Murdoch: Fox broadcasting, Fox News, Fox Business News, a rede Big Ten e os canais de esportes FS1 e FS2. Basicamente, os canais de esportes e de notícias. Todo o resto, especialmente a parte relacionada a entretenimento, foi comprada pela Disney e inclui os estúdios 20th Centrury FOX, FOX 2000 e FOX Searchlight; os canais FX (que veicula séries como Legion, American Horror Story e Fargo), FOX Television (que inclui programas como Os Simpsons e Arquivo X) e National Geographic, além dos canais digitais FXX e NatGeo e de 350 canais em 170 países; o canal de vídeo sob demanda Star, que tem público cada vez maior na Índia; e quase 40% da Sky na europa. Além disso, a Disney, somando a sua parcela anterior com a da FOX, terá 60% (controle majoritário) sobre o Hulu, um dos concorrentes do Netflix.

Entre as marcas/franquias famosas que a Disney adquiriu da FOX estão Os Simpsons, Futurama, 24 horas, Arquivo X, Buffy, Angel, Star Wars – Uma Nova Esperança (o original ainda estava com a FOX), Alien, Predador, Planeta dos Macacos, Independence Day, Kingsman e Avatar, além, é claro, dos X-Men e seus derivados (Deadpool, Novos Mutantes, X-Force, The Gifted, Legion) e do Quarteto Fantástico e seus derivados (Surfista Prateado, Galactus, etc).

 

Por que a Disney comprou a FOX?

Embora os nerds de quadrinhos estejam interessados na possibilidade de ver Wolverine junto com os Vingadores ou o MCU enfrentar Galactus, a Disney tem dois focos bem específicos: parques temáticos e streaming.

O primeiro é óbvio. Diferente de um filme, em que cada nova produção exige uma grande soma de dinheiro, os parques temáticos tem grandes somas iniciais, depois apenas os custos para manter o parque – mas continua a gerar grandes dividendos. Poder usar marcas de sucesso como Avatar ou Os Simpsons em parques temáticos é tudo o qualquer estúdio poderia querer.

As grandes corporações têm cada vez mais se preocupado com o avanço da popularidade do streaming, que hoje conta com diversos serviços além do Netflix, como Amazon, Hulu e Apple. O principal motivo (declarado oficialmente, pelo menos) para a compra da FOX foi a Disney poder se posicionar dentro desse mercado cada vez mais lucrativo. Com a expectativa de lançar seu próprio canal de streaming em 2019, a Disney já sairá na frente com um catálogo invejável de filmes e séries e assim espera ser um competidor à altura dos mais estabelecidos. Além disso, a Disney também vai se beneficiar de ser majoritária no Hulu.

 

Como ficam as séries Marvel/Netflix?

A Disney já anunciou que vai retirar todo seu conteúdo do Netflix até 2019, o que inclui todos os seus filmes e séries. Mas as séries da Marvel originais do Netflix (Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage, Punho de Ferro, Justiceiro e Defensores) são um acordo à parte e possivelmente continuem na plataforma. Isso pode parecer uma boa notícia, mas não necessariamente: é possível que a Disney force o cancelamento dessas séries para poder reutilizar estes personagens em seu próprio serviço de streaming, seja com novas séries ou filmes. Uma opção mais amigável, no entanto, pode ser a divisão dos custos e a continuidade das séries em ambas as plataformas.

 

E as propriedades da DC que estão na FOX?

Não era só de super-heróis da Marvel que vivia a FOX. Entre os programas mais proeminentes, a empresa veicula as séries Gotham e Lucifer e tem licenciamento da série do Batman dos anos 60. Também é de propriedade da Warner a série Máquina Mortífera. Como ficam essas propriedades, agora que a FOX é da Disney, sua principal concorrente?

Bom, a verdade é que a FOX, como todo estúdio, tem os programas produzidos pela própria corporação (Os Simpsons, Arquivo X, Uma Família da Pesada, etc) e aqueles que estão licenciados para veiculação, mas são produzidos por outros estúdios. É o caso das propriedades da Warner.

Além disso, a Disney comprou as propriedades da FOX, mas não a FOX Broadcasting, que seria o “canal aberto” da FOX, que veicula várias dessas séries. Então estas propriedades provavelmente continuarão com Rupert Murdoch, o que pode não ser uma boa notícia para quem curte estes séries. As informações dão conta que Murdoch pretende transformar o canal num hub de Reality Shows, notícias e esportes, o que pode significar o fim desses programas.

Já a série do Batman é um outro caso completamente diferente. A FOX co-produziu a série (junto coma Greenway productions) nos anos 60, antes mesmo da Warner comprar a DC Comics. Como parte do acordo, a FOX tem os direitos exclusivos de distribuição do material (é por isso que só em 2012 é que foi possível lançar merchandising e DVDs da série, porque a Warner precisaram resolver seus imbróglios legais). Atualmente, a Warner pode lançar produtos baseados na série, mas a série propriamente dita quem tem os direitos exclusivos de distribuição é a FOX, então a situação é um pouco nebulosa.

É provável que a Warner continue lançando produtos baseados na série, como a hq Batman 66, mas as vendas dos DVDs e Blu-Rays da série original, assim como Batman – O Homem Morcego (o filme baseado na série) terão que ser divididas com a Disney se o estúdio quiser continuar com a série no mercado de Home Video.

 

Deadpool não vai mais ser censura 18 anos?

A maior preocupação dos fãs de quadrinhos é a suposta “regra” da Disney de não fazer filmes para maiores de 18 anos. Kevin Feige já deu declarações neutras a esse respeito (dizendo não tem planos fazer filmes R-rated, mas que não está fora de questão), mas há precedentes para a Disney, que já foi dona da Miramax (que na época fez filmes como Pulp Fiction e Pânico) e da Touchstone (que fez filmes como Sexto Sentido e Corpo Fechado), então não é como se a Disney nunca tivesse feito nadacom censura 18 anos. Isso pode ser verdade para as marcas da Walt Disney, como Mickey, Donald, etc, mas não necessariamente para os “selos” da empresa.

Além disso, não demorou muito para o próprio Bob Iger, presidente da Disney, acalmar os fãs, dando a entender que Deadpool provavelmente vai continuar para maiores – e que inclusive há espaço para uma versão “R-Rated” da Marvel, desde que a Marvel consiga deixar claro que estes produtos não são para crianças.

 

O que vai acontecer com os filmes da Marvel/FOX já agendados?

O processo pelo qual as empresas passam para verificar se a fusão não vai canibalizar o mercado é rigoroso lá nos EUA e leva um tempo – de 12 a 18 meses). Esse é o tempo que o estúdio tem também para fazer uma transição gradual, sem que isso chacoalhe muito os empregos da galera no curto prazo (embora analistas digam que até 10 mil empregos podem estar em risco nessa fusão). Isso significa que, até lá por 2019, tudo o que estava agendado para sair e ser produzido, vai sair e ser produzido.

Filmes como X-men: Fênix Negra, Deadpool 2 e Novos Mutantes, que já têm data de estreia estão seguros para 2018. Filmes que começarem a ser produzidos em 2018 possivelmente terão seus destinos garantidos, mas a FOX pode decidir não dar sinal verde para novas produções que talvez nem tenham sequência, mesmo se forem um sucesso.

Entre as próximas produções Marvel esperadas pela FOX estavam o filme do Gambit (agendado para 14 de fevereiro de 2019), um filme do X-Force com censura 18 anos, uma nova versão do Quarteto focado nas crianças e um projeto do Noah Hawley (Fargo, Legion) envolvendo o Quarteto Fantástico que estava sendo boatado como um filme solo do Doutor Destino. De todos estes, Gambit talvez seja o único a ver a luz do dia, já que deve estar mais adiantado em termos de preparação para a produção.

 

E tem espaço para tudo isso de filme da Marvel?

A Disney tem colocado na rua 3 filmes da Marvel por ano. A FOX estava indo pelo mesmo caminho. A pergunta que acaba ficando é: quantos filmes da Marvel a Disney vai conseguir colocar num ano? Isso pode fazer com que alguns personagens sofram em detrimento de outros (se alguém tinha alguma esperança de Inumanos voltar pra divisão de cinema e ser rebootado, é bom não se agarrar muito a isso).

Mas nem tudo está perdido. É possível que a Disney decida deixar os lançamentos de cinema para os “filmes evento”, ou seja, mais equivalente a “megassagas” de quadrinhos, enquanto que outros personagens poderão ter chance de brilhar em produções diretamente para o serviço de streaming da Disney. Isso pode ajudar a aumentar o número de personagens que terá chance de ter um filme solo, além de possibilitar filmes com orçamento variável (e quem sabe disso podemos até ter filmes de baixo orçamento que corram mais riscos, como um filme de terror do Motoqueiro Fantasma?)

 

Bom, esse foi um apanhado mais geral que eu achei que era interessante fazer para centralizar as informações sobre essa aquisição da FOX pela Disney para quem estiver interessado. Há, é claro, outras questões a respeito dessa fusão histórica, como se isso realmente será bom para o mercado e para os consumidores no médio e longo prazo. Mas isso é assunto para outro texto.

 

 

* Na verdade, é um pouco mais complicado que isso, mas não é relevante entrar em detalhes.

Sobre Algures

Oi, meu nome é Algures e eu tenho 36 anos (teria se estivesse vivo). Compartilhe esse post com 20 pessoas e minha alma estará sendo salva por você e pelos outros 20 que receberão. Caso não repasse essa postagem, vou visitar-lhe hoje à noite. Dia 15 de Julho, José resolveu rir desse post, uma noite depois ele sumiu sem deixar vestígios. O mesmo aconteceu com Maria dia 18 de Outubro. Não quebre essa corrente, por favor, a não ser que queira sentir a minha presença (atrás de você).

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