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A gente vimos: Crise nas Infinitas Terras partes 1, 2 e 3 (SPOILERS)

Crise foi uma das primeiras histórias em quadrinhos que eu li, ainda criança. Acredito honestamente que foi essa história a responsável por criar em mim o amor pela ciência. Então vocês devem imaginar o quanto ela é importante pra mim. Nunca pensei que Crise pudesse ser adaptada para live action, não sem ser profundamente descaracterizada. Mas aqui estamos e é justamente no CW, que sempre nos deu as versões mais baratas dos super-heróis da DC (literal e figurativamente) que a história encontrou o espaço ideal para ser adaptada.

Primeiro é essencial levar em consideração que a dificuldade maior de adaptar Crise não é seu escopo épico (embora obviamente isso desempenhe seu papel) e sim sua conexão emocional. Crise não se trata apenas de aumentar os riscos (“já salvamos o universo tantas vezes, por que agora não salvamos vários universos?”). A história não teve o impacto que teve porque juntou um monte de terras aleatórias com versões diferentes dos heróis e as destruiu. Pelo contrário, o impacto se deve justamente ao fato de que muitas dessas terras e seus personagens tinham importância para os leitores. A Família Marvel, A Sociedade da Justiça, os Combatentes da Liberdade e diversos outros personagens espalhados pelo multiverso tinham suas próprias revistas ou apareciam em revistas de outrem, tinham sua base de fãs e sua marca no Multiverso DC. Para adaptar crise, era preciso ter um multiverso funcional cujas terras destruídas possuíssem personagens com os quais você se importa.

E isso é o que faz o Arrowverso ser o palco perfeito. Depois que Flash introduziu o Multiverso, esse se tornou um conceito importante para as séries. Conhecemos a Terra-2 e seus habitantes Harry Wells e Jesse Quick, a Terra-3 e seu mais emblemático habitante, Jay Garrick, acompanhamos as aventuras da série da Supergirl na Terra-38 e tivemos um crossover onde os heróis enfrentam suas contrapartes nazistas da Terra-X. Depois de tudo isso, o Arrowverso estava pronto para nos trazer sua versão de crise.

Primeiro as coisas ruins

Vamos tirar do caminho logo os pontos negativos. É CW, é Arrowverso, sabemos que vai ter coisa ruim. A primeira delas é o orçamento, claro. Quem assiste e curte as séries provavelmente não se importa com o fato de que os efeitos especiais muitas vezes são ruins (e eu particularmente não entendo muito isso, fico me perguntando como essa galera que não consegue lidar com isso viveria na época em que só existia teatro e cenários de papel), embora tenham suas pérolas (como em episódios do Flash com Grodd).

Mas Crise é um caso especial pelo seu escopo. Tendo que gerenciar o orçamento, fica claro nos 3 primeiros episódios que os produtores tomaram a decisão de iniciar e (presumivelmente) encerar o crossover de forma épica. O resultado é que o primeiro episódio parece muito com a Crise dos quadrinhos, visualmente falando, e muitas vezes nem parece uma série de TV do CW; já os outros 2 trazem as velhas estratégias para economizar: muitas cenas internas, pouca ação, poucas oportunidades para efeitos visuais e muito, mas muito falatório. Como Crise é uma história onde muita coisa épica acontece, o resultado às vezes é meio decepcionante, pois muita coisa acontece fora da tela. Não vemos cenas como o Superman da Terra-96 tentando salvar o máximo de pessoas possível da sua Terra antes dela ser destruída. Acabamos tendo que nos contentar com o relato do personagem.

Falando em personagens, o Arrowverso tem uma mania curiosa de querer usar os personagens coadjuvantes fazendo de tudo pra rejeitar as ferramentas que esses personagens trazem. Lois e Iris embarcam numa jornada para buscar outros heróis… e só. Ambas são jornalistas, mas suas habilidades investigativas não desempenham papel algum na história. Ainda assim, os produtores parecem dar tanta importância a elas quanto para Supergirl e Batwoman, que são protagonistas e possuem até menos a fazer em certos momentos. E quando as habilidades desempenham papel, é do jeito mais esdrúxulo e preguiçoso, como quando Ray Palmer tem que inventar um “detector de paragons”(?).

Outro problema que sempre é um problema do Arrowverso é o plot. Ou melhor, seus detalhes. Mais uma vez, Crise é um caso emblemático porque envolve duas questões logísticas bem específicas: 1 – o cronograma dos atores das próprias séries, limitado pelo fato de que a gravação do crossover não para a produção das séries (ou seja, algumas vezes eles gravam 2 episódios ao mesmo tempo). Isso faz com que muitas vezes os protagonistas não estejam disponíveis ao mesmo tempo para poderem gravar cenas juntos. E 2 – A disponibilidade dos atores convidados. Como um evento que buscou trazer atores de outras séries (atuais e antigas) para participações especiais, o quanto esses personagens estariam na tela dependia do quão disponível eles estavam e de quanto tempo levaram as negociações (alguns assinaram no último minuto).

Então a história teve que ser escrita de forma “modular”, com diversas cenas maleáveis para poderem ser movidas pra frente ou pra trás na história e para acomodar as participações especiais dentro de suas limitações de tempo. O resultado é que algumas participações (como do Tom Welling) podem ser decepcionantes para alguns e diversas cenas de grupo tiveram que ser filmadas em separado e editadas para parecer que estávamos vendo diversos heróis no mesmo lugar ao mesmo tempo.

Mas há outros problemas de escrita que são idiossincráticos. Um deles é sempre apelar para os macguffings mais preguiçosos, como nesse caso a ideia dos “paragons”, 7 seres através do multiverso “destinados” a salvá-lo. Há também diversas explicações convolutas que poderiam ter sido dadas de uma forma muito mais simples e sem mudar nada no resto do plot. Mas isso é clássico Arrowverso.

E por último, e talvez mais importante para quem é fã do Arrowverso, alguns plots que há muito estavam abertos como a morte do Flash em Crise foram resolvidas de forma anticlimática, pra dizer o mínimo. Conveniente e previsível, com certeza, mas bem aquém do que havia sido hypado desde o primeiro episódio da série.

Talvez alguns desses pontos negativos possam ser revertidos, pois a história ainda não acabou. Mas por enquanto, levem essas coisas em consideração se quiserem assistir.

Agora, o que importa: as coisas legais

Não dá pra não aplaudir os produtores do Arrowverso por tentar. O crossover tem o espírito do original e consegue entender bem que, mais do que o escopo épico, Crise é sobre o escopo emocional e nossa conexão com personagens de diversas “terras”, que no caso da versão televisiva, são as diversas adaptações live action da DC ao longo das décadas, no cinema e na TV.

De participações rapidinhas como Alexander Knox (Batman do Tim Burton) e Dick Grayson (Batman dos anos 60) a personagens que tiveram uma cena inteira como Tom Welling (Smallville) e Tom Ellis (Lúcifer), passando por personagens que tiveram status de coadjuvantes de luxo como o Superman da Terra-96 (Superman – O Retorno, mas também o Superman do Richard Donner com uma pitada de Reino do Amanhã), Crise trouxe personagens, histórias e/ou atores com os quais muitos de nós temos certa conexão emocional, o que torna o Crossover mais do que um desfile de “cameos”; faz com que a gente sinta, ainda que pela diversão da coisa, a destruição dos seus respectivos universos.

Além disso, Crise faz o melhor que pode com o orçamento que tem e nos dá alguns visuais e cenas bastante impactantes. O primeiro episódio até agora é o que mais faz você sentir as proporções épicas da Crise original e por enquanto é meu preferido. Mas as viagens dos personagens a outras Terras no segundo episódio e a participação de Lúcifer no terceiro (em uma cena que é simples, mas muito legal) também fazem a jornada valer a pena.

Uma das coisas que eu mais gosto em Legends of Tomorrow é que ela é a série (junto com Patrulha do Destino) de super-heróis que mais lembra as hqs no sentido em que é uma mistureba de gêneros e elementos de ficção que não deveriam funcionar juntos, mas que de alguma forma funcionam. Tem clones do futuro junto com viagem no tempo, demônios, feitiçaria e tecnologia tudo junto. Crise traz um pouquinho disso consigo, tendo o plot principal mais voltado para o sci-fi/fantasia, mas com subplots que envolvem o sobrenatural (com a presença do diabo em pessoa) e o místico (com Constantine fazendo seus paranauês). E é incrível como ninguém questiona essa mistureba (nem os personagens nem nós, espectadores), porque nessa maluquice que é a destruição de diferentes universos, meio que faz sentido.

Curiosamente, uma das melhores coisas que a Crise nos trouxe tecnicamente não faz parte do crossover. É o episódio 9 da terceira temporada de Raio Negro que, apesar de não ser um dos capítulos principais, funciona como um tie-in que explica como o Raio Negro foi parar na história. Raio Negro sempre foi uma série superior não só dentro dos super-heróis do CW, mas considerando todas as séries da emissora. E o fato de ter um showrunner como Salim Akil disposto a brincar com o potencial criativo e dramático de Crise sem descaracterizar sua própria série é bom demais. Tanto que me fez querer ter visto episódios especiais de Lúcifer, Smallville, etc.

Para os fãs da hq original, definitivamente é um crossover que vale a conferida. Mas é importante assistir de forma despropositada e entender que existem certas limitações que os quadrinhos não têm (e que um filme não teria). Por outro lado, existem coisas que só poderiam ser feitas num projeto seriado como esse. Obviamente não é como o original, mas tem seu espírito, os produtores claramente entendem o que têm em mãos e é nítido o esforço em fazer uma adaptação digna dentro das devidas proporções.

Agora é esperar até 14 de Janeiro para conferir o desfecho.

Nota: 8,3

P.S.: Há duas hqs tie-in do crossover, uma saiu essa semana lá nos EUA, a outra vai sair ano que vem. Ambas se passam entre as partes 1 a 3 e não são apenas hqs “pra bonito”, são meio que como partes “0.5” da história, com coisas que os produtores não conseguiriam fazer na TV (como certos personagens que não puderam usar, certos atores que não estavam disponíveis e certas cenas que necessitariam de mais orçamento do que eles tinham disponível). Se eu conseguir ler essas hqs, tento fazer resenha disso também.

Sobre Algures

Oi, meu nome é Algures e eu tenho 38 anos (teria se estivesse vivo). Compartilhe esse post com 20 pessoas e minha alma estará sendo salva por você e pelos outros 20 que receberão. Caso não repasse essa postagem, vou visitar-lhe hoje à noite. Dia 15 de Julho, Bugman resolveu rir desse post, uma noite depois ele sumiu sem deixar vestígios. O mesmo aconteceu com Triplo dia 18 de Outubro. Não quebre essa corrente, por favor, a não ser que queira sentir a minha presença (atrás de você).

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