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Joe Bennett foi “demitido” da Marvel. E nós com isso?

A essa altura do campeonato, todo mundo já sabe. No dia 02 de setembro, Al Ewing, um dos novos roteiristas do momento na Marvel, fez uma longa thread no Twitter contra seu ex-parceiro em Immortal Hulk, o brasileiro Joe Bennett.

Motivada por uma ilustração feita por Joe em 2017 exaltando a nefasta figura à frente da Presidência da República, Ewing dizia que, daquele dia em diante, jamais trabalharia com Bennett. Ao justificar sua decisão, Ewing não fez referência apenas à imagem do incompetente sobre um cavalo branco: os inimigos políticos do atual presidente no rodapé da cena (reconheci a cabeça do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci e dos ex-presidentes Temer, Dilma e Lula) são descritos por Ewing remetendo a uma caracterização típica e pejorativa usada contra os judeus antes da 2ª Guerra, assemelhando-os a ratos (sim, antes de Maus. Na verdade, ao usar ratos para caracterizar os judeus, Spiegelman estava ressignificando uma alegoria preconceituosa). Sim, eu sei, não é uma imagem tão evidente para nós aqui no sul global, mas para um escritor britânico como Al Ewing… narizes alongados, dentes protuberantes e orelhas pontudas, certamente remetem ao tropos usado para a infra-humanização dos judeus até o meio do século passado (a gente já viu isso em Nosferatu do Murnau, por exemplo).

Talvez o grande problema seja que bem… uns tempos atrás o mesmo Joe, no mesmo Immortal Hulk do Ewing, já havia cometido uma outra suposta derrapada. Na edição #43 (fevereiro de 2021), Banner aparece numa joalheria onde o letreiro da vitrine traz uma Estrela de Davi e as palavras Cronemberg [não entendi] Jewery. O problema, como me explicaram, é que “jewery” é um termo pejorativo em inglês para se remeter a “coisa de judeu”. Em português, algo próximo como “judiaria” (que é comum no Sul do país. Mas o Sul, né…). Na ocasião, Joe disse que se confundiu ao escrever de forma espelhada, talvez querendo escrever “Jewelry” (joalheria), mas a Estrela de Davi não ajudou muito.

Aí se junta a representação dos inimigos políticos daquele lá (2017), com essa possível mancada aqui (2021)… Pode até ser que não tenha nada, mas pra quem tem nariz… a coisa fede, e fede bastante.

Tudo isso culminou num comunicado da Marvel Comics de que o artista brasileiro não mais trabalhará para eles. O anúncio foi na última quinta-feira (09/09) e, conforme se vê na matéria da Newsarama, essa decisão encerra uma parceria de vinte e sete anos, iniciada em 1994.

Pois bem. Primeiro, para fazer jus ao título desse post, preciso explicar as aspas em “demitido”. Esse termo tem sido usado por aí, mas é possível que ele não reflita a verdade. Se não tinha um contrato de exclusividade com a Marvel, então Bennett era contratado por empreitada, como se diz no bom português do mundo. Então o lance é que a Marvel não pode demitir o desenhista, mas declarar sua intenção de não mais trabalhar com ele no futuro, como fez Ewing. O que já começou: Bennett tinha sido anunciado como um dos desenhistas do título Timeless, mas foi substituído por… Greg Land (sim, o Greg Land. Uma morte horrível, sem dúvidas).

E aí é hora de falar da segunda parte do título. E nós com isso?

Bem, você eu não sei. Mas quero usar do caso do Joe Bennett, o Bené Nascimento, como ilustração de um lance maior. Na real, uma espécie de reflexão em público.

Conheci pessoalmente o Bené em 2011, na Gibicon #0. O primeiro evento de quadrinhos que eu fui, real-oficial, cobrir para o MdM (sério. Teve um tempo em que a gente fazia isso).

Sim, naquela ocasião eu também conheci pessoalmente um monte de gente legal, pude trocar ideia e tomar café com literalmente mais gente que você possa imaginar a primeira vista.

Só nessa foto (2011) aí, procê ter ideia: o diretor e roteirista Paulo Biscaia Filho, Rodnésio, José Aguiar, o global Ivan Mizanzuk, Joe Bennett e o cãozinho das aquarelas, Marcos Beccari.

Foi uma viagem muito, muito legal da qual eu só guardo boas lembranças. Entre elas… o Bené Nascimento. Que foi legal pra caralho, super atencioso comigo. Trocamos altas ideias sobre um mundo de coisas. Não teria a petulância de dizer que ficamos amigos – mas ficamos próximos, e muito por parte da gentileza de um cara que já era um artista fodão para com um zé ninguém vindo de Minas Gerais e um tanto quanto deslumbrado com tudo aquilo, em ser recebido à mesa por um conte de gente cujos nomes eu só lia nos gibis.

No ano seguinte, voltei à Curitiba (que naquela época ainda não era uma república independente) para a edição #1 da GibiCon (hoje Bienal de Quadrinhos de Curitiba). Revi muita gente e sim, confesso, me surpreendi por ser revisto por outras tantas pessoas.

Outra vez topei com o Bené. Outra vez batemos papo, rimos, zoamos e nos divertimos (não, não lembro se teve uma farra como a da edição anterior. O que é sinal de que não teve. Ou, se teve, foi ainda mais detonante do que a outra e estou com amnésia alcóolica. Acontece, mesmo que eu ainda fosse jovem).

Enfim, mais do que ficar publicando minhas fotos de viagem e ficar imerso em nostalgia de quando a gente podia sair pra farra (ou escolher não sair pra farrear), o que quero demonstrar é que, esse cara aí que agora todos estamos pixando merecidamente (sim, usei a primeira pessoa), eu conheci como um cara legal pra caralho. Um fã de quadrinhos afrobrasileiro, do norte e que de tanto ralar tinha chegado lá. Um cara que eu conhecia dos grupos de quadrinhos do tempo da internet a gás, de títulos como a Insólita Família Titã, que depois de muito tempo sendo quase uma lenda, foi reeditada em 2014.

É uma história velha que todo mundo aqui passou nos últimos anos: ver uma pessoa querida de repente se tornar a encarnação de tudo aquilo que mais odiamos.

Não, não tô aqui pra passar pano pra ninguém, não é essa a ideia. Tô pensando muito mais nos termos que o Mano Brown usou quando foi entrevistado pelo Silvio Almeida, da estranha sensação que muitos de nós tivemos quando olhamos para o lado, onde estava aquele parceiro de tempos, e não o reconhecemos empunhando bandeiras impossíveis de colar junto.

De 2012 pra cá, meu contato com o Bené ficou limitado à internet, às redes sociais. Então é fácil perceber o gap de convivência que explicaria a diferença entre o cara legal que eu conheci dez anos atrás e a figura pública do presente cheia de ideias escrotas. Talvez não exista diferença nenhuma, e os escrotos, os protofascistas brasilianos, também eles sejam sujeitos legais quando não estão sendo escrotos protofascistas. Dê uma olhada no seu colega de trabalho, aí do seu lado. O boa-praça do intervalo do cafézinho, o cara espirituoso que salva a segunda-feira da repartição. Quais garantias você tem?

Não, se não estou aqui pra passar pano pra ninguém, também não estou para ativar o espírito da paranoia política geral. Calma, pode ser que seu colega aí seja um cara legal tanto no profissional quanto no pessoal. Mas nunca se sabe.

Com o andar da carruagem, da piora sem freios de tudo, das boiadas passando, aqueles que se mantém bolsonaristas em 2021 talvez sejam ainda mais execráveis do que já foram. Amanhã provavelmente serão mais execráveis ainda.

Nesse sentido, as pessoas devem ser responsabilizadas, punidas ou premiadas, conforme aquilo que decidiram fazer de suas vidas. Faz parte da cidadania, da vida coletiva. Ainda que o posicionamento político em si pese, e pese muito, a “demissão” de Joe Bennett da Marvel é fruto de suas próprias ações públicas. Pode-se criticar o efeito panóptico da vida nas redes, mas isso está aí e todos nós sabemos disso quando começamos a jogar.

Acho triste. Não a demissão, mas a repetição constante, cada vez mais constante, de que mesmo pessoas muito legais podem, ao mesmo tempo, alimentar e endossar as ideias mais escrotas. E que isso coloca em funcionamento verdadeiras barreiras entre nós, mecanismos de separação ativos.

Sim, isso diz respeito às minhas escolhas também, de cada um de nós. Escolhas sobre aquilo que achamos negociável e o que não achamos. Sobre o que se pode tolerar e o que, ao fazê-lo, nos tornamos coniventes. Todo mundo é adulto e deve se responsabilizar pelas escolhas que faz.

Talvez, se o Bené ou outro apoiador do atual cenário político ler isso aqui, ele diga ter uma sensação idêntica à que descrevo aqui, mas com sinal trocado. Não acerca dos valores, mas da desolação (não, eu não acho que seja a mesma coisa, que se possa dizer que é tudo igual com sinais trocados. Os valores, os objetivos, a realidade… esses mudam tudo).

Enfim. Foda.

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