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V de Vingança

O filme começa. Uma narração e uma cena que não fazem parte dos quadrinhos que estão bem claros na minha memória. Até aí, tudo bem. James McTiegue pode estar querendo facilitar para o público mundial, uma história britânica. Contudo, o resto do filme apenas comprova a impressão inicial V de Vingança não é uma adaptação, mas um outro filme. Talvez até um bom filme se fossem outros personagens, outra história e, principalmente, outro nome. Do jeito que está é apenas um filme que usa de forma covarde o nome da segunda maior obra do maior autor de Comics vivo, só superada por outra criação de Alan Moore: Watchmen.
V de Vingança é uma espécie de história de Alan Moore pasteurizada. Em outras palavras,o filme inibe o que havia de mais forte, subverte conceitos inovadores e, no final, estraga praticamente tudo que a história em quadrinhos de 1982 tinha. A única coisa que podemos ter certeza é que Alan Moore tinha razão em pedir que retirassem seu nome dos créditos, o filme tem muito pouco a ver com sua criação e seria muito mais honesto afirmar que foi “livremente inspirada” do que dizer “baseada”.

Daí vocês dirão: então você detestou o filme? Sim, estimados nerds. Eu detestei. A cada minuto que assistia eu pensava “mas isso não tem nada a ver. Onde está a esposa desse personagem, tão importante no original? Essa doutora só fica caracterizada assim?” e por aí vai. Como sabem, passo longe de ser o tipo de fã que detesta alterações. Sempre defendi filmes como X-men e Homem-Aranha que alteram personagens e história, mas mantém a essência de tudo (pouco importa se a Mary Jane ou Gwen Stacy são atiradas na ponte. O que importa é o que aquilo representará para Peter Parker e para os leitores ou espectadores). O filme produzido pelos polêmicos (e só) irmãos Wachowski passa longe disso. Abaixo seguem os pontos que mais me incomodaram no filme:
1) Alteração nos ideais de V: O V do filme (Hugo Weaving) trata-se de um homem que alterna entre a convicção e a insegurança, enquanto o original era um personagem de espírito e convicção inabaláveis. O V dos quadrinhos jamais mataria ou ficaria alegre por ver um homem morrer em sua frente (quem quer que fosse) e – principalmente – nunca se aliaria ao seu inimigo para derrubá-lo. No filme, V se alia ao sistema que jura destruir. Os fins justificam os meios? Apenas para o filme produzido pelos Wachowski.
2) Personagens descartados e descaracterizados: Rose, a esposa do policial Dominic (Rupert Graves) não aparece no filme. O próprio desequilibrado Dominic é outro personagem na telona. A importância de Rose no filme tratava de como a dependência de um regime pode causar ódio e revolta aos seus cidadãos. Isso não existe no filme. Rose não aparece, Dominic é um bom moço subserviente a Mr. Finch (Stephen Rea). Toda a graça que Dominic, típico funcionário de um regime ditador e Rose, típica oprimida de um regime ditador tinham foi para o espaço.
Mr. Finch também não é o mesmo. Nos quadrinhos Finch é quase o antagonista de V. Um homem leal ao regime e que o obedece cegamente, mesmo quando descobre os absurdos do governo. Nos quadrinhos, a libertação de Finch ocorre paralelamente à libertação de V, mas no filme não é assim. Finch é um personagem que questiona o governo que serve assim como é questionado. Esqueçam o antagonismo, o sujeito é um personagem comum em um filme de espionagem.


Adam Sutler (John Hurt, intérprete do personagem principal em 1984) não é mais um ditador obcecado pela sua posição, o peso de seu cargo e pelos seus conceitos limitados de Estado. Aqui Sutler é apenas um Hitler qualquer e as referências ao governo Bush soam vazias em comparação ao que George Lucas fez em Star Wars III e à própria banalização do personagem, muito aquém do que o dos quadrinhos é outro elemento negativo do filme.
3) A relação entre V e Evey: Se nos quadrinhos, V e Evey (Natalie Porman) são quase pai e filha e tornam-se (SPOILER, SPOILER, SPOILER, SE NÃO QUER SABER PARE AQUI) no fim a mesma pessoa (FIM DO SPOILER), o roteiro do filme reduziu a relação complexa e angustiante em uma historinha de amor mamão-com-açúcar. Sim, V agradece a Evey por tê-lo feito conhecer o amor e Evey lamenta a morte do homem V, sem preocupar-se em quem irá levar adiante a sua bandeira. Gilberto Braga, Manoel Carlos e outros autores de novela fazem muito melhor do que isso…
4) Verborragia excessiva: A fala de Evey no final do filme revela o erro desnecessário do filme em colocar em palavras o que as imagens deveriam contar. Típico erro de roteiristas inseguros. Aparentemente, os Wachowski já sacaram que nem todo mundo entenderia o que ficou muito mal explicado.
5) Os “Vs” de Vingança: A tal cena tão (adequadamente) temida é esperada por todo o leitor dos quadrinhos. Por isso mesmo, conforme o filme vai passando torna-se cada vez mais óbvia quando ela ocorrerá. A única surpresa que os Wachowski poderiam dar, torna-se banal, assim como seu final.
6) Teoria da Conspiração: O filme traz uma teoria da conspiração que não existe nos quadrinhos, não é desenvolvida adequadamente e não diz para que veio. A cena de Mr. Finch relacionando tudo está mais para um trailer ou um vídeoclipe do que cinema. Mais uma vez, os Wachowski querem contar mais do que podem mostrar. Erro que cometeram em Matrix.
Mediocridade prevalece

Sobre as atuações: todos os atores estão ótimos em seus papéis. Hugo Weaving demonstra ter uma das melhores vozes e dicções de Hollywood (coisa que Mr. Smith já provara na trilogia Matrix), Natalie Portman também defende seu papel com competência (a cena da tortura de Evey é, provavelmente, a única coisa que vale a pena). O problema é que quando os personagens não são diferentes dos originais, a história é.
Costumo dizer que para um filme existir ele precisa ter um motivo. Se eu rodar um filme do Capitão Marvel, ele terá uma enorme audiência, mas é preciso que eu tenha um motivo para fazê-lo: uma boa história, uma idéia nova etc. V de Vingança não tem motivo algum para existir. Falha em adaptar os quadrinhos, pois tem pouco a ver com o original. Se não queriam adaptar os quadrinhos, por que fizeram um filme com este nome? É mais ou menos como se Underworld resolvesse se chamar Romeu e Julieta, já que usa a mesma premissa. Se queriam fazer um filme tão diferente que usassem outros personagens e, principalmente, outro nome.
Nota: 0. Alan Moore está para os quadrinhos como Shakespeare está para o teatro. E com esse tipo de gênio não se brinca. V de Vingança é uma brincadeira muito aquém da original, disfarçada de um bom filme. Triste… Muito triste…
Blogman ficou triste com esse filme

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