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MALDITO ESQUERDIsMO o Robin agora é bi!

(o texto a seguir é uma ampliação de uma thread que fiz no Twitter em 16/08/2021. Se você já leu por lá, vai perceber que a ideia central é a mesma, alguns trechos foram meramente copiados pra cá. Mas as diferentes plataformas permitem diferentes abordagens, então… taí)

Não é de hoje que quadrinho de super-herói já não é mais aquilo tudo que um dia foi. Mesmo uma certa revitalização decorrente do fenômeno MCU, não passou nem perto de fazer com que a mídia original alcançasse outra vez as milhões de cópias vendidas de um mesmo título num único mês, como já foi antigamente.

Apesar de ser um produto relativamente barato de produzir (se comparado a outras mídias de massa, tipo games, cinema, séries de Tv ou desenhos animados) e de seu alto potencial de gerar marcas exploráveis em outras mídias mais rentáveis, os ventos não têm soprado a favor dos quadrinhos tem é tempo.

Quadrinhos sendo insumos para o cinema, saca?

De modos que a indústria dos quadrinhos tem se desdobrado há um bom tempo para chamar atenção para seus produtos – se antes para alavancar a venda deles em si (basta lembrar da Morte do Superman); atualmente para, além de aumentar as vendas, também criar mais insumo para as outras mídias mais rentáveis. Assim, de tempos em tempos alguma das grandes editoras joga uma pedrinha no lago de águas paradas que virou a cena dos quadrinhos de super-heróis: mata-se um personagem de alto reconhecimento, muda-se uma etnia ou identidade sexual de outro e por aí vai.

É certamente na esteira disso que, no último dia 10, pintou a notícia de que o Robin III, Tim Drake, pode ser bissexual. Em parte a estratégia funcionou, já que gerou buzz fora dos veículos tradicionais da cobertura de quadrinhos: Exame, VEJA, Gazeta do Povo, Extra, Folha, são alguns, só alguns, dos portais que deram espaço para a mudança.

Mas claro que o meio “nerd” abriu o berreiro. Como diz aquele verso cantado pela diva Clementina, teve quem “arrebentasse a goela de tanto chorar”.

Foi o caso de um conhecido mimimizento do meio que, num vídeo que só falta estourar a veia do pescoço, criticou parte do argumento do Canal Quadrinhos na Sarjeta (de que a mudança encontrou solo na falta do que fazer com o personagem, vivida pela DC desde que Damian Wayne se popularizou como Robin); parte dizendo que a mudança era errada porque, nesses anos todos de publicação, nunca houve nenhum “indício” de que Drake fosse bissexual: além de namorar – além dele ter um relacionamento de longa data com Stephanie Brown (a Salteadora/Robin/Batgirl/Spoiler), teoricamente nunca houve um balão sequer, de pensamento que fosse, indicando a atração de Tim por pessoas do mesmo sexo.

Vamo lá, são dois argumentos distintos. O primeiro se dirige a dizer que não, a DC não anda perdida com Tim Drake. Como disse, ele responde diretamente à posição do Alexandre Link, do Quadrinhos na Sarjeta. No vídeo que linkei acima (“Robin bissexual e a Batgirl do Esquadrão Suicida”), ele aponta a hipocrisia da DC: com a mesma mão que acena à comunidade LGBTQI, faz o dedo do meio para a comunidade das pessoas com deficiência, ao fazer Bárbara Gordon, tornada cadeirante pelos eventos vistos em “A Piada Mortal”, voltar a andar do nada em Novos 52.

Afinal, a DC sabe o que fazer com Timothy Drake, o Robin III? Para o crítico, ela sabe sim, visto que o transformou em Red Robin quando da chegada do Damian como Robin V.

Eu acho isso pouco, porque concordo com o argumento de que a DC não anda sabendo muito o que fazer com ele. Apesar do personagem ter tido grandes momentos (Crise de Identidade, Justiça Jovem original, os Titãs de Geoff Johns), quando Bruce morreu a editora recauchutou o manto de Red Robin (que surgiu originalmente com o Dick em “Reino do Amanhã”) e o fez andar na corda bamba que separa o bem do mal, obcecado em trazer de volta o pai adotivo e abusando da violência. Na sequência, Tim foi transformado em Batman do Futuro II e, no pacote, aproveitou para reaproveitar alguns conceitos já apresentados em Batman do Futuro – O retorno do Coringa.

Quando nada disso vingou, com a chegada de Michael Bendis o personagem mudou de novo de uniforme e se tornou… DRAKE (aí sim os vilões ficaram de c* na mão!). Isso tudo para, a julgar pelas imagens da “polêmica”, fazê-lo Robin de novo!

Mil faces de Tim Drake: Robin III, Red Robin, Batman Beyond II, Drake, Robin (ou Red Robin?) de novo

Oras, pra mim isso tudo deixa o cenário bem claro: esses eventos todos apontam uma editora SEM SABER COMO DAR RELEVÂNCIA A UM PERSONAGEM!

Assim, colocá-lo no centro de uma “polêmica” sobre sexualidade é só mais um esforço para trazer pro centro do palco um personagem que, apesar de interessante (é meu Robin favorito), nunca engrenou.

E por “colocar no centro do palco” quero dizer chamar atenção e, com ela, um pouquinho mais do vil metal nos cofres. O que o Link bem aponta (e concordo com ele, coisa que nem sempre acontece), a decisão tem mais dedo do marketing do que do criativo. Como sempre.

Não é a DC sendo mais inclusiva pelo valor moral da inclusão – essa é uma visão infantil que nós, de ambos os lados da contenda, já devíamos ter abandonado há tempos. É a DC (e a Marvel também, não se engane) sendo inclusiva para incluir mais dinheiros.

Veja bem, quando digo isso, não quero dizer que a diversidade é, em si, desimportante. Não é, e vocês sabem que eu não diria algo nesse sentido. Discuto aqui a motivação de se abraçar a diversidade.

Discuto como o esperneio é coisa de gente que, apesar da barba na cara, segue com o cérebro pré-escolar (sim, Alan Moore, cê segue certo).

Uma página, seis quadrinhos, e uma polêmica do caralho

Quero dizer que essas empresas fazem isso de olho no l’argent. Elas serão mais (ou menos) inclusivas quando acharem que isso dará mais (sempre mais) retorno financeiro. Lembrando q capital simbólico também se reflete em retorno financeiro, já que compramos narrativas.

Em 2021, se apresentar como uma empresa “diversa” é uma narrativa que vende (mesmo que a equipe por detrás das cortinas seja composta apenas por homens norteamericanos, brancos e heterossexuais). Não está muito distante o momento em que a grande pauta quente será se mostrar ecologicamente consciente, de modo que não deveremos nos surpreender se a Hera Venenosa se reabilitar e entrar para a Liga da Justiça.

São ciclos que até parecem ser diferentes na superfície, mas cujo motor segue sendo o mesmo desde que uns gansgters compraram, das mãos de dois moleques judeus, a ideia de um sujeito superpoderoso de capa e cueca por cima da calça.

Isso é algo que os chorões e, em último nível os comicgaters não conseguem entender: se quem “lacra não lucra”, porque editoras de quadrinhos, parte de grandes conglomerados de mídia, vão deliberadamente preferir lacrar a lucrar? Isso não faz sentido nenhum, absolutamente nenhum. É achar que grandes empresas capitalistas seriam idealistas a ponto de colocar preferências ideológicas acima de sua razão de existir, que é o lucro! Pra pensar assim, só mesmo quem acredita que George Soros, o Mark Zuckerberg, ou o Bill Gates são comunistas satânicos. Provavelmente é um sintoma do uso prolongado de chapéus de alumínio, mas me faltam dados mais robustos.

Urr durr doutrinassãum

Este primeiro argumento é meta-narrativo, isto é, ele está situado fora da narrativa. O segundo, por sua vez, é narrativo: “oras, Tim Drake nunca deu pistas que gostasse de pessoas do mesmo sexo!

Antes de mais nada, preciso dar uma notícia que talvez seja muito dura para algumas pessoas: Tim Drake não existe fora dos gibis. Ele é um personagem fictício que, em função disso, segue sendo eternamente um jovem adulto (apesar de ter sido criado em 1989). Portanto, ele será tão coeso e dará indícios comportamentais tão coerentes quanto queira o roteirista do momento.

Mas, para possibilitar que nossa conversa avance um pouco mais, vamos considerar que ok, a gente possa esperar uma coerência do personagem ao longo do tempo (sei lá, vamos fingir que só o Marv Wolfman escreveu o personagem, desde 1989 e que, cioso, se esforçou bastante em construir um personagem tão análogo a uma pessoa de verdade quanto possível).

Se no gibi do mês que vem, Tim Drake disser que é vegano, teremos respaldo para dizer que isso é incoerente? Em quantas histórias do personagem sua doutrina alimentar foi tema? “Mas ele foi mostrado várias vezes comendo hambúrgueres com os Titãs!”. Tenho amigos que já se esbaldaram de carne comigo em churrascos mil e que um dia pararam de fazer isso. Pode ser que eles se cansaram da minha companhia, que encheram o saco de churrasco ou… que se tornaram veganos. Se nunca colocarmos esse assunto em pauta, como tal (suas escolhas alimentares num sentido amplo), talvez eu nunca saiba que se tornaram veganos. Se um dia voltamos a sentar juntos e eles dizem, num convite para um churrasco, “Não, obrigado, sou vegano”, faz sentido dizer que eles estão sendo incoerentes?

O que estou colocando é: nós já vimos Tim se relacionar com Stephanie. Isso quer dizer que ele é heterossexual? Ou isso é o autocompletar do meu cérebro (quiçá do meu desejo) que me deixa confortável? Isso é uma verdade interna da trama ou é o meu default de leitura falando mais alto? Porque, bem, se eu vejo a pessoa Y beijando outra pessoa X (diferente ou igual a Y), isso não é suficiente para que eu posicione a orientação sexual de Y já que, no mínimo, há a possibilidade de duas (hetero ou homo, a depender do gênero de X E bissexual, independente do gênero de X).

Trocando em miúdos: só termos visto Tim Drake beijar mulheres, é suficiente para afirmarmos que ele é heterossexual?

A resposta é um sonoro não. Isso quer dizer que só me foram mostradas situações em que ele beijava pessoas do sexo oposto. Podem existir momentos, que não me foram mostrados, em que ele beija pessoas do mesmo sexo. Ou pode ser que, de fato, isso nunca me foi mostrado porque ele nunca beijou essas pessoas do mesmo sexo. Um caso ou outro não muda nada, não apaga as mulheres que ele já beijou afinal, aquele “B” em LGBTQIA+ não é de biscoito, mas de BIssexual.

E tá tudo bem, isso também não resolve todo o problema.

Porque ainda que a gente fale na orientação sexual como algo não deliberado por parte das pessoas e que é, tomada quase como inata, ela ainda pode se manifestar ou não. Um amigo pode se declarar homossexual e, num dado momento, se sentir atraída por uma pessoa do sexo oposto. Uma amiga (e quantas tenho nessa situação!), depois de uma vida inteira heterossexual um dia, num processo de investigação de si qualquer, disse “Eita, acho que eu sou/posso ser bissexual…

Não, eu não falei de “uma amiga” acidentalmente. Tem um ponto muito sensível aqui: é muito mais comum ver mulheres (tanto hetero quanto homo) dispostas a olharem para si mesmas com abertura suficiente para questionar aquilo que sempre trataram como “normal” no campo da própria sexualidade. Entre homens esse processo de autodescobrimento (ou autoafirmação crítica) da própria sexualidade é socialmente desestimulado, quando não vetado.

Meu ponto aqui é (e lembre-se que estamos tratando Tim Drake como um personagem sempre e radicalmente coerente): e se Tim Drake, que sempre se viu como heterossexual, que nunca pensou no assunto, um dia qualquer se percebeu com borboletas no estômago” ao conhecer outro rapaz? Isso seria incoerente, ou teríamos que concordar que na verdade a vida bateu num ponto para o qual ele nunca tinha recebido atenção?

Isso acontece com pessoas reais. Por que não aconteceria com personagens de ficção? Mais ainda, por que não aconteceria com um personagem de ficção que sequer é coerente no curso do tempo?

Isso vale para a orientação sexual, para a filosofia alimentar, para a moral, para os objetivos… Se até para coisas físicas e radicais (tipo a anatomia de mutantes) se dá um jeito de fazer alterações, o que não se dirá em termos de comportamentos ou atitudes?

Tirei essa imagem daqui.

Quadrinhos são histórias e, no fim das contas, uma história valerá mais quanto melhor for a sua qualidade enquanto história, narrativa.

Um personagem se descobrir bissexual não diz nada se acontece numa história ruim, se o escritor não souber o que fazer com aquele limão que o pessoal do marketing colocou no seu colo. Ainda que a inclusão seja, por si mesmo algo interessante, só ela não basta.

Espero que a DC dê um bom tratamento, que traga boas histórias usando como recurso essa “nova” característica do personagem. Porque senão será como ter fome e saber que existe comida em algum lugar: até nos conforta, mas seguimos com fome.

(mas isso é assunto para outra hora, pra outro texto. Que inclusive já escrevi. Droga, tô ficando repetitivo…)

Sobre Poderoso Porco

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