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A gente lemos: Almanaque Guará nº1

Quando a Guará anunciou essa nova proposta de publicação, uma revista antologia de quadrinho brasileiro, fiquei pilhado. Mas aí não tive mais notícia e acabei esquecendo. Aí esses dias, não sei bem porque, me lembrei e fui atrás do 1º volume pra ver de qualé.

A capa fodona é dele, Daniel HDR!


São quatro histórias que compõem a edição: Santo, Ecos, Cidadão Incomum e Guará Independente.

1) “Santo – Assombração”, de Alex Mir no roteiro, Dilacerda nos desenhos, Mateus Manhanini nas cores e Ananda Valle nos balões.


O Santo era um personagem já da antiga Guará, sob a batuta daquele jacu lá que criou o Doutrinador. Como tudo daquele sujeito, o personagem era uma coleção de clichês, superficialidades, imitações e, no fim, não passava Doutrinador supostamente do povo de santo. Aqui o Mir, que entre um mundo de produções, toca desde 2011 a série de HQs “Orixás”, obviamente já traz um ganho de entendimento sobre o universo que o personagem habita.

Nos desenhos, Dilacerda é uma grande novidade pra mim. E novidade das boas, baita artista mesmo. Sua arte é madura, com uns ecos de Vertigo, que me lembra Mitch Gerads em O Xerife da Babilônia.

Salvador, o Santo, é uma espécie de caçador de demônios e congêneres, o que faz com o apoio de Seu Zé (provavelmente, este Seu Zé aqui), a entidade que o acompanha. Nesta primeira história, Salvador e Seu Zé estão diante das consequências nefastas de rituais quase esquecidos.

A história diverte, mas tem dois defeitos: a repetição do recurso narrativo da dupla de protagonistas errar o alvo; e Seu Zé meio Shmoo dos Flintstones, mudando de “forma” toda hora, de maneira boba e caricata.

2) “Ecos – Caminhos desencontrados”, de Lauro Kociuba (roteiro), Rapha Pinheiro (desenhos), P. R. Soliver na arte-final, Vitor Wiedergrün nas cores e Ananda Valle nos balões.


Num mundo alienígena bem detonado, acompanhamos o início da jornada de Kenneth, Alev, Nayna e Zip. Essa primeira história não diz nada, não aponta rumos nem cria expectativas. É o começo beeeeeem começo mesmo.

3) “Cidadão Incomum – A ponta do iceberg”, de Pedro Ivo (roteiro e desenhos) e Ananda Valle nos balões.


Lançado originalmente como romance pela ed. Conrad em 2017, Cidadão Incomum é sobre um rapaz comum, Caliel, que ganha superpoderes no Brasil contemporâneo e decide dar uma de super-herói.

Dado o absurdo da situação, a história se dedica às consequências desse tipo de aparição no mundo concreto, e os esforços de Caliel e seu amigo, Éder, para manter a existência do Cidadão Incomum em segredo. Ao se envolver quando um homem, Zika, tenta assaltar um ônibus, Caliel coloca o Cidadão Incomum ainda mais na pauta da imprensa e das conversas populares. Ao mesmo tempo, parece que algo maior está para acontecer.

O Skoob registra outra publicação dessa mesma história e de sua sequência no ano passado, pela própria Guará Entretenimento. Porém, não achei outras referências a ela, nem no Guia dos Quadrinhos, na Amazon ou no próprio site da Guará.

4) Guará Independente – “Segundo tempo”, de Alex Mir (roteiros) e Marcelo Costa (desenhos).


O Almanaque Guará tem por proposta trazer, em cada edição, uma história independente. Nas palavras do editor Rapha Pinheiro, isso representa o esforço da Guará em acompanhar o mercado e trazer pra debaixo da asa da editora o que tem potencial e qualidade.

É o caso de “Segundo Tempo”: aqui temos um interessante drama envolvendo o futebol quase de elite. É sem dúvida a história mais interessante da edição, com uma trama de futebol “local”, de 30’s de Junho’s F.C.’s e São Bento’s E.C.’s, com suas tensões e intrigas.

O grande problema é que a história não faz nenhum sentido do ponto de vista editorial, porque rotulada como “independente”, descoberta de “potencial e qualidade”. Oras, Alex Mir tem outra história na mesma revista e o Marcelo Costa, bem… não dá pra falar de “potencial” sobre um cara que já tem dez anos de mercado, com HQMix nas costas e Graphic MSP. Se isso não bastasse para que disséssemos “Hein?” para o rótulo de “descoberta de material independente com potencial” para essa HQ, a coisa ainda fica pior: como chamou minha atenção o Fernando Caruso, essa história já foi publicada pela editora Draco em 2016! Não tem recurso semântico que permita chamar de “independente” uma história que JÁ FOI publicada por uma EDITORA!

E, se não bastassem essas questões editoriais, ainda há mais bizarrice com a publicação da história: ao final de cada uma das históiras, há um previewzinho textual da continuação na próxima edição. Aí vem o preview de Segundo Tempo e traz um spoiler imenso sobre a morte de um personagem!


É um gibi legal, interessante e que, como toda coletânea, tem seus altos e baixos. Enquanto Segundo Tempo e Santo (nessa ordem) são interessantes (ou demonstram potencial), Cidadão Incomum e Eco não entregam o suficiente para emitir um juízo de valor, não dizem muita coisa.

Sobretudo a Ecos, que nessa primeira edição não chega a mostrar absolutamente nada: os personagens estão indo, a mando de uma mulher misteriosa, tentar embarcar num trem que ninguém embarca. Por quê? Não sabemos. Sob quais riscos? Não sabemos também. Pra mim, seria fundamental ter esse tipo de informação no “episódio piloto”, digamos assim, de uma história seriada.

Assim, digo que curti a ideia do almanaque e parte da execução, mas duas coisas me fizeram falta: o texto do editor, Rapha Pinheiro, podia ter explicado mais a proposta da publicação (as três histórias “da casa” estarão sempre lá? Qual a periodicidade da publicação? O que é o lance dos embaixadores?); e, em paralelo, acho que faltou um pouco mais de diversidade, algo do crescente quadrinho feito por mulheres no país, por exemplo.

Essa pouca variedade fica literalmente visível quando chegamos ao final da revista, quando são citados os “embaixadores Guará”: influencers aparentemente responsáveis por divulgar a produção da editora. Exceto pela Aine, que é uma mulher trans, os outros três são caras brancos de meia idade com aquela mega pinta de sul/sudeste de sempre.

Logo depois de ler o gibi e ainda antes da conversa com o Caruso, tava ali na dúvida se compro o segundo volume ou não: afinal, são duas histórias que eu queria acompanhar e duas que eu poderia acompanhar para ver no que vão dar. Mas, mas, maaaaas… confesso que com a história troncha de publicação de Segundo Tempo e sua propaganda na edição rolou uma desanimada. Estamos falando de uma revista de R$29,90. Por mais que a ideia seja legal, não dá pra pagar isso para o desejo de ler uma única história de 25 páginas (Santo, no caso).

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