A Gente Lemos: A nova Ms. Marvel (#1 – #9)

De uns tempos para cá, a Marvel parece que tem acertado o caminho em suas histórias de personagens menores, isolados do resto do universo. Isso tem ocorrido com o Demolidor do Mark Waid, o Gavião Arqueiro do Matt Fraction, o Cavaleiro da Lua e o Justiceiro (esse últimos ainda não li, mas me falaram que são bons) e também com a nova Ms. Marvel. Como estava todo mundo comentando que era bom, e como já tinha lido tudo do Demolidor e do Gavião e adorado tudo que li, resolvi dar uma chance a mais nova super heroína da casa das idéias. Depois de ter lido as nove primeiras edições, que são as que estão disponíveis até o momento no Marvel Unlimited (não baixo scans por motivo de preguiça), resolvi contar para vocês o que eu achei.

A nova Ms. Marvel, Kamala Khan, é uma adolescente muçulmana que mora em Nova Jersey, é fã de super heróis (especialmente da Miss Marvel, vai saber porque) e também uma Inumana, descobrindo isso no dia da explosão da nuvem terrígina ( se você não sabe o que é isso, não tem problema, basta assumir que uns pós aí deram poderes a ela). Como inumana, Kamala tem o poder de se esticar e mudar de forma (basicamente uma Reed Richards sem a inteligência).

O Bom

Um dos fatores que sopram um ar de novidade em Ms. Marvel é o foco na vida de uma adolescente comum. Sem grandes dramas, sem pais super-espiões. Sem tios bandidos que roubaram grandes corporações. Apenas uma adolescente de classe média baixa, vivendo com sua família e escrevendo fanfics homoeróticos sobre o Wolverine com o Ciclope. Ou seja, Kamala Khan poderia ser um leitor do Mdm.

Fora o fato dela ser mulher.

Isso faz com que suas histórias sejam bem mais leves e divertidas, especialmente na parte civil. Enquanto com o Homem-Aranha, por exemplo, muito do foco na vida civil dele era a sofrência do Peter Parker, aqui, a vida da Kamala é interessante e, apesar dos problemas, bem para cima. Afinal, problema, todo mundo tem.

“Caridade é coisa de Padre”

Outra parte bem legal da vida civil da Kamala são os personagens coadjuvantes. Começando pela família, temos o pai boa praça mas que quando fica puto bota os filhos de castigo xingando, a mãe super séria e o irmão que diz ser um muçulmano mais “comprometido”, mas que na verdade usa isso apenas como desculpa para não arrumar um emprego (fala a verdade, se você não tem um parente vagabundo é porque provavelmente você é ele). Eles parecem uma família de verdade, e não apenas uma família de comercial de margarina.

Outro ponto positivo é o melhor amigo que sabe o segredo dela, que na prática é uma representação da friendzone pela qual tantos de vocês caminham. Ele acaba virando também uma espécie de inventor para ela, similar àquele amigo do Super Choque. Aliás, a explicação dele ser inventor faz sentido: Em um mundo de super heróis científicos, as aulas de química e física do colégio seriam bem diferentes. E temos também a amiga muçulmana mais séria, sempre de véu e contra tudo que é divertido, que tenho a impressão que um dia vai virar o Harry Osborne da história. Outro ponto positivo é o imã (não uma pedra magnetica, mas o “padre” muçulmano), que também consegue fugir bem dos clichés.

Falando em religião, também é positivo o fato de que apesar dela ser muçulmana, a história não é focada somente nisso. Isso é um pedaço de quem ela é, mas não é tudo que define sua personalidade. Kamala é mais do que apenas “uma menina muçulmana”. Ela é uma adolescente que por um acaso tem uma família muçulmana e que por um acaso tem superpoderes.

O Mal

Minha maior reclamação com a história advém do fato de que muitas vezes as coisas parecem ocorrer à moda caralha, sem muita explicação ou exploração de como os personagens deveriam se sentir ou reagir a determinados acontecimentos. É como se a autora quisesse sair do ponto A pro ponto Z na história, e passasse correndo pelas outras letras apenas porque tem que passar. O que melhor exemplifica essa tendência é a aparição do Dentinho.

Não esse, mas tão feio quanto.

Na aparição dele, ela imediatamente corre até ele, abraça, e leva para casa, sem mais nem menos. Sim, dentinho, o “cachorro” que é do tamanho de uma vaca. Depois, quando ele mostra que pode teleportar, ninguém fica surpreso, ou tenta saber o por quê “desse cachorro gigante que eu peguei na rua aleatoriamente poder teleportar”. Tudo isso para a história seguir rapidamente onde ela quer chegar, ignorando como os personagens (até aí, bem pé no chão) reagiriam nesse tipo de situação.

Outro ponto que me incomodou bastante é que, apesar do fato da Kamala ser uma mulher e muçulmana, a história da contraparte civil dela tem algumas partes extremamente cliché, como a colega de colégio que faz bulem com ela ao mesmo tempo que uma grande fã do seu alter ego (cof cof Flash Thompson cof).

Outra coisa que achei desnecessária foi as histórias da edição 6-7, que foi um Team-Up completamente desnecessário com o Wolverine. Tá, eu sei que isso alavanca vendas, e que o Logan tem uma certa propensão à pedofilia treinar garotas jovens como a Lince Negra ou a Jubileu, mas a entrada dele na história foi muito gratuÍta.

Por fim, um problema que senti nesta fase inicial da personagem é que falta um senso de escala, de um arco maior. Ela passa boa parte das edições lutando contra vilõezinhos buchas, e mesmo o grande “arco” no background da história parece que não vai levar a nada. Isso faz com que as partes com a Kamala Khan sejam mais interessantes que as da Ms. Marvel.

O Feio

O traço do principal desenhista da história, Adrian Alphona é excelente, e as edições desenhadas por eles são muito boas. O mesmo não pode ser dito do artista que fez as edições seis e sete, Jacob Wyatt. O traço do cara é até simpático, o único problema é que esse filho da puta não sabe desenhar pernas:

“Ain Maximus seu burro, isso é estilo, ele desenha assim de propósito e…”. Então olha isso:

Wolverine andou faltando o dia de malhar perna.

Olha. Essa. Porra. Desse.Wolverine.

Sem mais perguntas, meretíssimo.

Conclusão

Ms. Marvel é uma HQ bem bacaninha. Não vai mudar a vida de ninguém, mas é uma ótima maneira de passar um tempo leve e descompromissado. Dado a quantidade de merda que sai de Marvel/DC, é uma leitura mais que bem vinda.

Nota: 7,5

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