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A Gente Vimos: Star Trek Discovery (sem spoilers)

Que Star Trek é uma das principais forças do mundo nerd ninguém duvida: com seus mais de 40 anos de longevidade, sete séries televisivas e uma porrada de filmes, deve figurar como uma das maiores – senão a maior – franquia da ficção, ultrapassando gerações levando o entretenimento onde ninguém jamais esteve.

O problema é que, num mundo em constante mudança a série, que sempre teve como uma de suas qualidades a vanguarda (afinal, já na sua primeira encarnação possuia um elenco principal multi-étnico, coisa impressionantre para a época), vinha enfrentando resistência para continuar popular nos últimos anos, precisando sofrer um reboot radical nos cinemas para retornar ao gosto do grande público.

E por mais que os filmes de JJ Abrams tenham seus méritos, aparentemente eles não caíram no gosto dos fãs mais aguerridos, fazendo com que houvesse uma divisão rígida entre o Jornada nas Estrelas da TVesse novo aí do cinema. E essa separação parecia garantida até que a Neflix (sempre ela), na sua busca incessante por propriedades intelectuais alheias mal-cuidadas, resolveu engolir a galera da Tropa Estelar e produzir uma nova série dentro da estética do novo universo dos últimos filmes.

E aí, será que isso presta?

Bem, a princípio (e para fins desta resenha) não tem muito o que se falar ainda da nova série pois a mesma seguirá o mesmo modelo de outras produzidas pelo serviço de streaming como Better Call Saul e trará somente um episódio por semana. Ou seja, à exceção do piloto – que mantendo uma tradição nas séries de Star Trek funciona como um episódio duplo – todos os outros serão disponibilizados semanalmente. Isso tem seus pontos bons e ruins, mas faz com que tenhamos ainda muito pouco para julgar se esse reboot presta ou não.

Mas pelo que já está disponível, a dobradinha O Olá VulcanoBatalha das Estrelas Binárias, talvez já tenhamos o suficiente para imaginar qual será a tônica desta nova encarnação.

Em primeiro lugar, caso você seja um fã das séries anteriores, poderá estranhar toda a linguagem cinematográfica da nova produção com enquadramentos maiores e câmeras que se movem junto com os personagens que dão um clima bem diferente do que estávamos acostumados até agora. Saem as câmeras fixas em plano médio e closes e entram enquadramentos dinâmicos, que acompanham o fluxo da ação, bem como uma resolução de tela compatível com o já familiar widescreen.

Mas logo que passa o estranhamento, é impossível negar as vantagens desta mudança, sobretudo nas sutiliezas que traz consigo – por exemplo, dando enquadramentos levemente angulares em muitas cenas à bordo da USS Shenzhou mostrando que nem sempre numa nave estelar as coisas existem à linha do horizonte (que, aliás, é um recurso importado também direto dos últimos filmes)

E já que estamos falando da nave, a Shenzhou consegue ao mesmo tempo mostrar a inovação tecnológica da nova produção mas, ao mesmo tempo, remetendo ao clima de suas antecessoras, estando num meio-termo, por exemplo, entre a Enterprise e a Voyager – nem tão grande, mas também nem tão pequena. Outra coisa bacana que foi mantida é o clima de antiguidade retrô do design de produção, já que a Shenzhou é uma nave “antiga” segundo os padrões de 2263 (dez anos antes do início da série clássica).

E assim como se pode falar de cada série dentro de Star Trek de acordo com suas respectivas naves (ou estações espaciais) o mesmo pode ser dito de seus capitães, e a capitã Philippa Georgiou (Michelle Yeoh) é uma distinta aquisição ao plantel de oficiais que dirigiram as principais naves do Starfleet no passado – a segunda mulher, inclusive, seguindo os passos da fantástica Katherine Janeway, de ST: Voyager (Kate Mulgrew, a Red do Orange is the New Black) mostrando que a posição de capitão ainda pertence às personalidades marcantes. E ainda que, talvez, ambas, nave e capitã, possam não permanecer no decorrer da série, já mostram como as coisas são em outras naves que não a famosa Enterprise, já (re) consagrada nos cinemas.

A tripulação no entanto permanece uma incógnita. Além da já divulgada Primeiro Oficial Michael Burnham (Sonequa Martin-Green), vemos muito pouco os outros oficiais da ponte, uma vez que a trama gira em torno de Burnham, uma oficial humana criada por vulcanos, com um passado marcado pela guerra, que precisa encarar uma crise à bordo da Shenzhou como sua segunda em comando. Esse foco é bem diferente dos pilotos das séries anteriores mas é uma novidade coerente com as demais atualizações presentes até então.

Além dela, é possível também destacar o Tenente-Comandante Saru (Doug Jones), oficial sênior de ciências da Shenzhou, um Kelpen – uma das novas raças exclusivas do novo seriado, que funciona como o contraponto passivo e pacífico ao ímpeto agressivo da Primeiro-Oficial. Além dele outros personagens aparecem, mas muito pouco, porém o suficiente para despertar o interesse do espectador.

Por fim, uma nova aquisição de Discovery são a nova apresentação dum velho conhecido dos Trekkers – Os Klingons aparecem já no piloto, totalmente diferentes dos alienígenas que até então apareciam na franquia, tendo como semelhanças apenas o caráter guerreiro da espécie e sua organização quase tribal. Porém, apesar das muitas mudanças (até o idioma klingon parecer ser outro, diferente do clássico, ou pelo menos assim pareceu para meus ouvidos destreinados), elas formam um conjunto bem coeso e arrisco dizer que até um tanto melhor que o velho visual de “fãs espaciais do KISS“, mas ainda é cedo para fechar um veredito.

No final do piloto, a sensação que fica é a de que embora, sem dúvida, possamos estar diante dum novo Jornada, algo está fora do lugar. É mais ou menos como, imagino, os fãs se sentiram quando assistiram ao primeiro episódio de Andromeda (que também era do mesmo criador, Gene Roddenberry, mas ao mesmo tempo totalmente diferente). Porém possui o suficiente do DNA da Frota Estelar para fazer com que se queira continuar assistindo. Só nos resta ficar na torcida para que finalmente uma nova série de Star Trek consiga se estabelecer e, quem sabe, continuar a sustentar a vida longa e próspera que a franquia teve entre seus fãs até hoje.

 

Star Trek Discovery

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