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A gente vimos: O lar das crianças peculiares

Quando seu querido avô falece deixando pistas sobre um lugar mágico, Jacob viaja para uma ilha galesa e encontra um orfanato abandonado. Lá, o mistério e o perigo se aprofundam quando ele começa a conhecer o local e os seus moradores: crianças com poderes especiais conhecidas como peculiares e a Senhorita Peregrine, uma peculiar que comanda o orfanato e cuida dos jovens. Jacob também conhece os inimigos poderosos de seus novos amigos, e, em última análise, descobre que apenas a sua própria peculiaridade especial pode salvá-los.

Não, eu não tô doente, nem cai de cabeça.

Usando a velha lei de REIS, Ivan (2012), eu sei que não sou o público dessa adaptação. Mas era uma noite solitária de segunda-feira, quando a Mell e o Elfo me ofereceram uma cadeira na pré-estréia do novo filme do (ex-fodão) Tim Burton. Pensei “Por que ir, por que não ir, por que ir, por que não ir” e fui-lo.

livro

Se você não sabe, O orfanato da Srta Peregrine para crianças peculiares (adaptado ao cinema como O lar das crianças peculiares) é uma das mais novas séries de blockbusterezes literários infanto-juvenil. Escrito por Ramson Riggs, a série narra a história de Jacob, um adolescente que começa a descobrir, depois que seu avô é morto, que as histórias bizarras que o velho contava não eram exatamente mentira. O que decorre daí é a evocação do velho arquétipo do estranhamento tão presente na adolescência, aquela sensação de não pertencimento a tudo. No livro, assim como em X-men (por exemplo) essa inadaptação, esse estranhamento é fantasiado na forma dos diferentes dons que as crianças “peculiares” possuem: assim, Emma precisa de sapatos de chumbo para não sair voando por aí; Bronwyn, apesar de parecer a Maísa do Silvio Santos, é superforte; Enoch consegue dar vida a seres inanimados (inclusive pessoas mortas); Olive faz pegar fogo tudo o que toca, e por aí vai.

Na verdade, o primeiro livro (eu comecei a ler, mas abandonei) existe em torno das fotos bizarras de crianças que Riggs acumulou ao longo dos anos. A fim de apresentá-las, Riggs escolheu criar um universo fantástico em que aquelas figuras são todas reais e tal. O principal problema do romance O orfanato da Srta Peregrine para crianças peculiares é de ritmo: você precisa acompanhar um personagem chato e sem convicções como Jacob (que é um looser new generation: não é que ele se inapto socialmente, ele até é, mas o lance é que ele é niilista pra dedéu) numa trama que custa a te dar algo de interessante. É um vai-não-vai que enche o saco.

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Esse problema é resolvido no filme, que tem um ritmo bem mais ágil. Porém, outra zica acaba surgindo: O lar das crianças peculiares tem sérios problemas de consistência interna. É claro que estamos falando de um mundo bizarro em que uma adolescente precisa de sapatos de chumbo pra se manter presa ao chão. Mas daí a ela conseguir nadar com eles nos pés é meio que pedir demais (isto considerando que a cena anterior usa esses mesmos sapatos como recurso para ela afundar). Ou te demonstrar que Enoch precisa de um coraçãozinho para animar cada objeto/ser, e de repente ter todo um exército sob seu controle. Ou ainda Barron desviar de dardos (vão colocar tudo na conta da falta de pontaria de Jacob, mas ele claramente desvia de alguns) só pra ser ingenuamente atropelado por uma cadeira (falando em atropelamento, um dos vilões é atropelado – e aparentemente morre – e Burton não dá nenhum destaque à cena, ele simplesmente some com o personagem, e a gente nem sabia se eles podiam ser atropelados! Inclusive, isso teria resolvido grande parte do filme já no começo)…

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Isso são só alguns aperitivos, porque o filme tem mais furos que a sua cueca da sorte, e toda a questão envolvendo viagens no tempo (fundamental pra trama) é uma zona monumental, que exigiria um texto de 45 pagedowns exclusivamente pra ela.

Apesar disso, como ressaltei acima, eu não sou o público do filme, nenhum de vocês é (bem, talvez o Lojinha seja). Isso quer dizer que para espectadores ali na faixa dos 10 anos e poucos, tudo isso passe batido em prol de toda a carga lú00dica do filme.

Entretanto, não há ressalvas para o trabalho vergonhoso de Tim Burton. Rapaz, que direção preguiçosa! Seu velho cacoete de fotografia está lá (um mundo “real” cinza e triste, confrontado com um mundo fantástico totalmente colorido, quase a terra dos Teletubbies), suas figuras bizarras também, ainda que em menor escala. Mas nossa… os atores estão péssimos – destaque para Eva Green, SIM! A EVA GREEN! Que entrega uma atuação forçada, com uma afetada voz roufenha sem razão de ser. Num filme com viagens no tempo rolando soltas, é impressionante como Burton não consegue transmitir as diferenças de época usando o cenário e a ambientação e, pior, como o próprio diretor parece não conseguir controlar o tempo das ações (a cena de luta no circo é particularmente sintomática: um dos vilões é afogado, amarrado por trepadeiras, tentam queimá-lo, uma das crianças anima len-ta-men-te um elefante de brinquedo enquanto a outra vilã assiste tudo, inexplicavelmente sem intervir, de um ponto estratégico). E sabe o que é mais bizarro? O orfanato da Srta Peregrine para crianças peculiares é uma história que nasceu para ser dirigida por Burton – não duvido nada que a estética do diretor tenha influenciado o próprio trabalho de Riggs – mas… no fundo, parece que Burton fez só pra pagar as contas. Tendo na mão um roteiro que misturava “Peixe Grande”, “O estranho mundo de Jack” e “Edward Mãos-de-Tesoura”, Burton entrega o seu equivalente a “O último mestre do ar”. Barbaridade.

Inclusive, essa é a pergunta de um milhão de dólares: qual o último filme realmente bom que você assistiu do diretor? Considerando que além deste eu também vi “Alice no País das Maravilhas” e “Sweeney Todd”, o último pra mim que valeu a pena foi… “A Noiva Cadáver”. Que é de… 2005!

O Lar das Crianças Peculiares, de Tim Burton (direção), baseado no romance de Ramson Riggs. Com Eva Green (Srta. Peregrine), Asa Buterfield (Jacob Portman), Samuel L. Jackson (Barron), Ella Purnell (Emma Bloom) e outros. Estréia nacional em 29 de setembro de 2016.

 

Nota: 4

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