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A gente lemos: A vida oculta de Fernando Pessoa

Produção luso-brasileira, A Vida Oculta de Fernando Pessoa estreou no Catarse no segundo semestre do ano passado e logo se tornou um projeto muito bem sucedido, atingindo 349% da meta inicial (arrecadou R$24.475,00 dos R$7.000,00 pedidos). E não é pra menos: o projeto se propunha a contar a “vida secreta” e a relação com seus famosos heteronômios de um dos mais famosos e queridos poetas da Língua Portuguesa, o monstruoso Fernando Pessoa. Uma proposta totalmente alinhada à uma certa tendência atual, a de reimaginar personalidades “históricas” como personagens em mundos fantásticos. Daí que dá-lhe “Abraham Lincoln caçador de vampiros“, Barão de Mauá se encontrando com Júlio Verne, Jesus hates zombies, etc.

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Então a proposta aqui é simples, mas muito interessante: e se houvesse algo por trás da criação dos pseudônimos (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis) além da mera inventividade do poeta português? E, mais do que isso, e se houver algo por trás mesmo da pacata vida do poeta? E se Fernando Pessoa fizer parte de uma guilda, um clã secreto de caçadores de zumbis? E se ele fosse o próprio executor desse clã e seus pseudônimos, formas de expurgar de si aqueles que teve de executar?

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O problema é que a HQ promete algo que não vai cumprir. Se a proposta era contar a vida secreta de Fernando Pessoa, o que se vê de “secreto” não passa de uma linha: “Fernando Pessoa era caçador de zumbis e seus heteronômios na verdade eram pessoas que ele matou”. Fim. O resto, os diálogos, os momentos, tudo são coisas já muito conhecidas, já tornadas públicas (logo, nem um pouco ocultas) pela própria obra de Pessoa. Muito fiel à produção poética do lusitano, os diálogos são desprovidos de fluidez e naturalidade, mais parecendo duelo de citação: um sujeito cita um verso e recebe por resposta um outro verso que só muito sutilmente tem alguma ligação com anterior, e a coisa segue. Tudo acaba ficando pernóstico demais, matando a ação e o desenvolvimento da trama. Falando em desenvolvimento, surge outro problema: preocupado em encaixar cada um dos pseudônimos na trama e nos diálogos, o roteirista português André Morgado acaba não desenvolvendo nada – apesar de recorrente, o resto da guilda para qual Fernando Pessoa trabalha não é digno sequer de um nome ou propósito mais elaborado. O mesmo se pode dizer dos zumbis, que são um mal grave, cuja contaminação se transmite pela mordida há anos, mas pouco é dito e ninguém parece se importar (ou sequer perceber) muito – apesar de terem a pele azulada (!), Ricardo Reis os confunde com meros republicanos revoltosos.

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Mas a história pede maiores desenvolvimentos! Porque Pessoa usa um bacamarte quando há armas mais eficazes disponíveis? Como a guilda recruta seus membros? Algumas coisas são deixadas por conta do leitor mesmo, como se ele, não sabendo quem foi Ophélia Queiroz, por exemplo, não merecesse entender o final do álbum, já que a moça surge como Pilatos no Credo, sem ter sido apresentada ou citada antes.

O grande problema é que o álbum gera desperdícios: desperdício de um plot interessante, desperdício de uma arte viva e consistente (o traço de Alexandre Leoni traz muita influência da animação contemporânea, o que poderia ser bem utilizado para acrescentar um caráter mais aventuresco à proposta) numa HQ cujo roteiro é enfadonho e raso.

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No que diz respeito à publicação, o álbum acabou sendo editado pela SESI-SP Editora, que optou por manter o português lusitano para auxiliar na ambientação, o que foi uma bela ideia. Entretanto, o álbum tem uma sobrecapa (ou luva) que eu achei meio nada a ver. Não acrescenta nada ao material em si, os dois cortes (que fazem as vezes das lentes dos óculos do Pessoa) se abrem para nada, mostrando fragmentos aleatórios da capa real. Pior: essa maldita sobrecapa é meio centímetro maior do que a revista em si, gerando uma sobra que só serve para ficar amassada e comprometer (ainda mais) a estética do produto final. Esse é aquele tipo de ideia que parece muito boa pra gourmetizar a coisa, mas que não faz sentido nenhum em ser levada a termo de qualquer jeito.

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Enfim, A Vida Oculta de Fernando Pessoa tinha tudo pra ser uma HQ bem legal, seja do ponto de vista digamos “histórico” da coisa, seja no aspecto diversão – oras, um poeta caçador de zumbis?, mas que fica ao meio do caminho nos dois alvos: acaba sendo mesmo é uma piadinha interna para estudantes de Letras

 

A vida oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado (roteiro) e Alexandre Leoni (arte). 92 páginas, colorida, SESI-SP editora. R$39,90.

Nota: 5

 

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