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Fazendo Melhor: Man of Steel

Quem acompanha meu trabalho (vulgo ninguém), sabe que um dos meus prazeres é esmiuçar o que eu critico, procurando os pontos fortes e os pontos em que o mesmo pisou na bola e poderia melhorar. Tanto que uma parada que ouço muito em qualquer crítica que eu faço é o clássico (e burro) “Ain meteu o pau no filme mas deu nove e meio” (INCLUSIVE OUÇO ISSO DE CERTOS ESTAGIÁRIOS HAUHAUAHUA).

Tipo isso.
Tipo isso.

A principal efeito de se analisar assim as coisas é que os cuequinhas sempre ficam ofendidinhos e lançam mão do velho “ain você só fica procurando defeito para falar mal da Marvel/DC/Disney/Anime/Aquele FDP que mora lá em Piracicaba/Seu pai e sua mãe no baile dos enxutos, quero ver se fosse você que tivesse que fazer” ou o já clássico “Faz melhor, então!”. Eis que resolvi trucar essa porra e mostrar pra vocês como eu faria melhor então. Mais especificamente, como eu consertaria um dado filme.

Uma parada que me incomoda, mais do que filmes simplesmente horrorosos, são filmes que são oportunidades perdidas, que tem várias idéias boas mas que ficam perdendo tempo com bobagens, ou que tomam decisões de roteiro que são simplesmente inexplicáveis. Acredito que muitos destes filmes, apenas com pequenas mudanças em cenas e algumas regravações, poderiam ser grandiosos e fodas. Por isso, acho que o ideal não seria ir pelo caminho fácil de jogar o filme fora e fazer outro no lugar (como o cara do Belated Media fez com as Prequências de Star Wars).

Então a parada é o seguinte: a idéia seria se por no lugar do produtor que vai ver um corte do filme pronto e sente o velho e querido “fudeu“. Não dá pra regravar o filme todo, no máximo algumas cenas e uns efeitos especiais. Logo, o foco será identificar o que está no cerne dos problemas do filme, e tentar consertá-lo com o mínimo de esforço possível.

Para começar, eu não poderia escolher outro filme senão filme mais comentado no sétimo maior blog de 2007 (e primeiro de quadrinhos): Man of Steel!

Já posso ouvir o choro daqui.

Man of Steel

Man of Steel é um filme interessante, pois, se me recordo bem, a recepção geral sobre ele começou bem, e conforme o tempo foi passando, parece que seus problemas foram ficando mais aparentes. Eu mesmo gostei bem mais da primeira vez que vi do que da segunda. Da primeira vez os visuais e a porradaria sem limites me conquistaram, mesmo com alguns problemas aparentes. Da segunda os problemas do roteiro e, principalmente, dos personagens me fizeram aproveitar bem menos o filme.

Ele não é nem de longe esse filme horroroso que todos pintam, mas infelizmente também não é tão bom quanto poderia ser. Tem muito potencial desperdiçado no roteiro do filme, que tem idéias realmente boas, que acabam sendo prejudicadas por alguns problemas temáticos no filme.

Basicamente: O Super aqui não é o superman, e isso vem do Snyder simplesmente não entender a moralidade do Super, não entender o que é ter um poder quase infinito na mão e não usar isso para se tornar o rei do mundo. Isso transparece no filme o tempo inteiro. Ele não entende que o que faz do Super o maior dos heróis não é o fato dele ser o mais poderoso, mas sim ele ser o mais humano. Por isso temos um Superman estranho, que parece meio alheio a tudo que está acontecendo em volta dele, que não se preocupa muito com as pessoas, que não entende direito porque ele está salvando pessoas. E isso tudo começa na infância mostrada no filme, e é por ela que começaremos a consertar o filme.

Estou, obviamente, falando de uma das maiores cagadas de Man of Steel, que foi…

Jonathan Kent é inexplicavelmente mesquinho e egoísta

O grande problema do filme é: Como puderam fazer isso com o Jonathan Kent? Nos quadrinhos, ele é um dos grandes influenciadores da personalidade do Superman. É um cara oldschool, que tem valores muito concretos sobre fazer a coisa certa, não se aproveitar dos outros, sempre tentar o melhor e tudo o mais que associamos a uma pessoa boa (Lawful Good pra ser mais específico). Ao invés disso, o filme nos entrega uma pessoa que responde à pergunta “O que você queria que eu fizesse? Deixasse aquele ônibus lotado de crianças afundar em um lago?” com um “Talvez“. PORRA!

Seria como fazer uma versão do Homem Aranha onde o tio Ben era Nazista®
Seria como uma versão do Homem Aranha onde o tio Ben era Nazista® (sabe quem também etc)

Para consertar essa cagada, antes temos que entender o porquê do roteiro ter feito esta escolha. Uma das principais funções da infância do Super é estabelecer as motivações do mesmo, mas principalmente para mostrar porque ele não agiu como super-herói desde a infância até a idade adulta. Então tenhamos isto em mente ao propor as modificações.

A primeira mudança óbvia tem que ser que o Jonathan jamais daria uma bronca no Clark por ter salvado aquelas crianças (que são amigos do filho dele, aliás). Aquele momento seria perfeito na verdade para o Jonathan mostrar pro filho que ele fez a coisa certa. Contudo, ainda assim é importante para o filme que o Clark entenda a necessidade de proteger sua identidade. Para isto, bastaria modificar a cena em que o Jonathan e a Martha estão conversando sobre o acontecido, mostrando que, apesar de eles saberem que o filho foi um herói, os dois estão apavorados com a idéia de alguém descobrir a origem do filho deles e isso levar a algo ruim, e mostrar o Clark ouvindo esta conversa escondido com a sua super audição.

Dessa forma, resolvemos dois problemas: (1) Mantemos a idéia do Clark estar inseguro sobre usar seus poderes e sobre ser visto, que é importante para o roteiro (2) Salvamos a personalidade do Jonathan Kent, que não precisa mais ser o cuzão que diz pro filho dele que o segredo dele é mais importante que a vida de todos os seus amigos. Além disso, fazemos isso apenas modificando poucos diálogos.

Feito isso, outra mudança tem que ser feita em outra cena problemática: A cena da morte do Jonathan. Aqui, podemos aproveitar e beber da fonte da mesma morte em All-Star Superman. Como a personalidade do Jonathan está diferente agora, uma solução seria inverter os papéis, com o Jonathan falando pro filho salvar as pessoas que estão morrendo devido ao tornado, enquanto o Clark fica confuso e retruca “Mas pai, eles vão descobrir meu segredo“, e ouve uma resposta do tipo “Filho, toda vida é preciosa. Não há segredo que valha a vida de inocentes” ou qualquer merda do gênero (não sou o escritor do site, heuheheuhue). Clark então resolve ir, começa a salvar pessoas em super velocidade, e começa a se sentir bem com isso. Corta para o Jonathan, que também está ajudando pessoas a fugir do furacão, e vai salvar uma criança presa num carro, só que ele fica preso no processo. O Super volta orgulhoso para contar pro pai que ele salvou diversas pessoas, apenas para ver o furacão levar a pessoa que ele mais gostaria de salvar na vida: O próprio pai.

Viram só? Com essas pequenas mudanças, temos um Jonathan Kent que serve de inspiração heróica para o filho, e ao mesmo tempo temos um Clark com sentimentos conflitantes sobre heroísmo, já que isso custou a vida do pai dele (que facilmente se sacrificaria de novo para que o filho salvasse diversas pessoas), o que o levaria para a vida cigana até ele se encotrar e ver que ser herói é o certo.

Com isso, já temos uma mudança de 180 graus na temática do filme, com ele deixando de ser sobre como segredos podem ser mais importantes que a vida humana para o altruísmo pode ter um preço muito alto, mas ainda assim é a coisa certa a se fazer. Tirado esse problema do caminho, agora bastariam poucas modificações para o filme continuar fazendo sentido tematicamente.

A cena do caminhão preso nos troncos.

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Uma cena que demostra claramente que o Snyder não entende o Super é a cena do bar, onde um babaca joga cerveja na cara dele e ele não reage, apenas para logo depois sair e destruir o caminhão do babaca. Esse é o tipo de reação que se espera de um personagem tipo, sei lá, o Wolverine, mas não do Superman. Essa cena é cheia da hubris de mexeu comigo, se fudeu, que é basicamente contra aquilo que o Superman representa, especialmente depois da mudança de tema do filme com a nova infância e tudo mais.

Para minimizar a mudança, melhor que simplesmente cortar a cena seria modificá-la para, novamente, mostrar os valores que fazem do super o que ele é. Na prática, continuaria mostrando o Super saindo do bar, com o cara em seguida indo e encontrando o seu caminhão todo fudido com os troncos, apenas para cortar de volta para a cara do Clark após a cerveja na cara, mostrando que tudo isso foi só algo que ele pensou em fazer (o que seria até fácil) e ilustrando que ele sabe a diferença entre o certo e o errado, e não vai fuder com o principal sustento de um caminhoneiro (e sua família), apenas porque o cara tarra bêbado e foi babaca.

Isso, bazingueiros, chama-se fazer a coisa certa. Isso é ser o Super Homem.

Agora, só falta mais um problema para o filme ter o tom certo de um filme do Superman…

O Superman não salva nenhum civil durante as lutas

Essa é uma parada que me deixa encucado. Na luta com a Faora, ela diz especificamente “você é fraco porque você tem moralidade e nós não“, dando impressão que durante as lutas era para o Superman estar preocupado com civis e que ninguém morresse (inclusive os kriptonianos), mas o Snyder cagou solenemente para isso em nome do massa véio.

Então, uma mudança simples, mas que mudaria radicalmente as lutas da metade final do filme, seria mostrar que o Superman seria fisicamente muito superior aos kriptonianos (por estar em contato com sol amarelo por muito mais tempo e estar acostumado com os poderes), mas que estes jogam sujo o tempo todo, arriscando as vidas de civis, que o Super salva mesmo apanhando no processo. Isso já vai preparando o terreno para o apogeu (o meu apogeeeeu) da luta, pois fica bem claro que os kriptonianos vão usar de todas as artimanhas para vencer, até matar todo mundo que está no caminho. Inclusive, dá até para deixar a morte do Zod se quisessem, já que agora ela teria um peso completamente diferente, com o Jonathan Kent mostrando pro filho o valor que todas as vidas tem.

A vantagem de mudar isso é que como estas lutas são pesadas no CG, daria para fazer muita coisa com dublês em fundo verde, por exemplo, o que não encareceria tanto.

Caso eu estivesse lá na Warner quando o filme saiu (e alguém ligasse pro que eu digo), estas pequenas mudanças fariam do filme algo muito melhor, e, mais importante, algo que fosse mais fiel ao personagem e ao que ele representa. Tem outras coisas que poderiam ser modificadas? Sim, mas acredito que apenas isso já transformaria o filme.

E não percam, pois na próxima coluna vou pegar um filme inexplicavelmente ruim: o novo Quarteto Fantástico.

 

Sobre Maximus

Um carinha do barulho que vai arrumar altas confusões nesse site que é um estouro.

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