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Desculpe o transtorno, mas vamos falar de assédio?

A gente precisa falar disso porque vira e mexe rola alguma coisa.

Em 2013, teve um manelão durante o FIQ que achou engraçado tirar fotos das virilhas das garotas e postar por aí dando nota.

Este ano, desenhistas, roteiristas e tudo mais decidiram botar a boca no trombone (outra vez) sobre Eddie Berganza, editor da DC.

Este ano teve desenhista misógino, agressor (físico. Sim, físico!) de mulheres, pagando de descontruidão – e sendo aplaudido.

Este ano teve pesquisador de quadrinhos misógino e racista botando banca pra cima de outras pesquisadoras da sua equipe, dizendo que “ter buceta” (estou sendo literal) não as credencia a falar de nada – nem mesmo de feminilidade e quadrinhos.

Este fim de semana que passou, desenhistas e aspirantes a desenhistas deram com a boca no mundo pra dizer que um outro desenhista, famosinho no meio (no QG do MdM foi definido como “celebridade de Facebook”) vinha as assediando repetidamente.

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Em comum todos estes casos têm, além da óbvia relação entre homem e mulher na vitimização, o fato de que, exceto por um comentário aqui ou outro ali, terem alcançado pouco espaço (o caso Berganza é exceção) na mídia e pior, poucas consequências: seja na tomada de consciência dos envolvidos, seja nos posicionamentos de quem assistiu, passivo, a tudo.

Veja bem: não falo disso e me posiciono sobre o assunto porque sou bom, um paladino da justiça social. Não sou. Sei que viver em sociedade é permanentemente ver tolhidos os nossos desejos de satisfação egoístas em prol da convivência – e, hobbesiano, sei que a única forma de sobreviver com segurança é abrindo mão desses mesmos desejos.  Faço isso porque me chateia profundamente saber que, em pleno 2016 tem mulheres quadrinistas tendo que aturar mensagens invasivas no inbox de desenhista celebridade de Facebook.

Desenhista-celebridade este que a gente sabe quem é. Todo mundo sabe.

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(ok, todo mundo é muita gente) Todo mundo que se interessou e que é alguém na linha produtiva do meio quadrinístico brasileiro sabe. Caramba, até aqui no MdM a gente sabe quem é!

Porra Porco! Se você sabe quem é, diz aí! Mete a cara do cara na grade, vai ficar de brodeiragem?

Vou, mas não com o babacão da vez. Vou ficar de brodeiragem com as garotas assediadas, que decidiram, pelos seus próprios motivos, NÃO dizerem publicamente o nome do cara que, embasado na sua network, no seu emprego, ficou invadindo suas inbox pedindo foto íntima. Por que elas fizeram isso? Os motivos são/podem ser os mais diversos – a Rebeca Puig e a Brendda Lima elencaram alguns deles neste post aqui, cuja leitura eu sinceramente recomendo. Mas acima de todos, o motivo mais importante de todos para não divulgar o nome do cara: elas não quiseram. Fim. Direito delas. Mas que a gente sabe quem é, que as garotas que produzem quadrinho no Brasil todas sabem, isso sabem. Pronto, quem importa manja já do que tá rolando.

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Isso quer dizer também que eu, obviamente, não vou nomear as vítimas. Não sei se você percebeu, mas esse é um texto meio diferente: não tô falando delas, tô falando de mim e de você.

Se você não é parte da galera bazzinga que acabou de chegar no mundo dos quadrinhos (e nenhuma das pessoas referenciadas acima é), você sabe que pouco tempo atrás nós, os nerds, não éramos uma galera benquista. A gente tomava zoação, era perseguido no recreio, não raras vezes levava porrada. Por quê? Por nada que justificasse!

MAS O JOGO MUDOU, QUERIDINHA! E de repente todos os anos que nós gastamos lendo, aprendendo, enfurnados no que (naquela época) se chamava computador, nos valeram de alguma coisa. A gente já sabia o que era um celular antes de ver o primeiro Motorola Star-tôco, porque a gente manjava Jornada nas Estrelas. A gente já tava ligado nos clones antes da Dolly. O mundo de fantasia no qual a gente vivia estava se tornando o mundo real! Sensacional, né?

Quase. Tô relendo Tom Strong. Lá o Moore já dá uma cutucada: os nerdezinhos são uns sujeitos bem escrotinhos também (os nerdinhos salvos do Homem-Modular querem entrar para os Strongmen só para terem fotos de Dhalua, a Srª Strong). Porque a gente aprendeu um bocado sobre ciência e tecnologia com as nossas ficções, mas aprendemos pouco sobre humanidade com a nossa vida real miserável. Quando a mesa virou e a força física deixou de ser o grande mérito, nós de repente ficamos em cima da cocada preta. E o que fizemos? Tratamos todo mundo que não estava exatamente conosco do mesmo jeito como éramos tratados antes! (sim, neste momento percebo um ranço disso em mim quando falo dos bazzinga)

Transformamos as mulheres no alvo da vez. Julgamos todas merecedoras do troco do desprezo que recebemos de algumas lá nos nossos anos escolares porque, né? É melhor alimentar a cadeia do que interrompê-la – E NÓS NÃO PODEMOS PERDER ESSA OPORTUNIDADE DE ESTAR POR CIMA E TRATAR OS OUTROS TÃO MAL COMO NOS TRATARAM, BWA-HA-HA!

Até onde sabemos, o cara que assediou as garotas se valeu desse expediente: ocupar uma situação privilegiada num campo ao qual suas vítimas queriam ascender. O link é óbvio: nós nos transformamos no Bozó, aquele personagem do Chico Anysio, que tinha um crachá da Globo e cantava as gostosas dizendo que lhes daria uma chance!30b7589e76e95a2edc655287fabb6f94_xl

Mas alguma coisa precisa ser feita, no sentido de trazer novas consciências, mais entendimento e respeito às diferenças. Se a DC até agora não fez nada sobre o caso do Berganza, é importante ressaltar que a coordenação do FIQ se posicionou claramente quando tomou conhecimento do ocorrido. É importante ressaltar que o grupo de pesquisa está de olho ao pesquisador machista. E, claro, vale destacar que diretores de escolas de desenho, como o Marcelo Campos, da Quanta, também têm se posicionado à luz do fato recente.

Por fim, é importante que as vítimas saibam que existem lugares seguros para falar, denunciar e buscar apoio. As vítimas mais recentes têm se organizado num grupo. Afora elas mesmas, há um mundo de pessoas aí fora abertas e disponíveis para isso, acolher as demandas e dar suporte no prosseguimento: as meninas do Collant sem Decote e do Lady’s Comics, o pessoal do grupo Mulheres em Quadrinhos do Facebook e claro, nós aqui do MdM também. Nossos Twitters estão abertos, nossos inboxes de Facebook e caixa de e-mail também (o melhoresdomundo.net@gmail.com).

Melhorar este mundo para que ele fique bacana pra todo mundo é dever de todo mundo, poxa! Sejamos menos Bozó’s!

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Antes de fechar, é importante agradecer à Rebeca Puig e à Cris Peter, com quem troquei ideias para a escrita deste post. Obrigado, meninas!

Sobre Poderoso Porco

O mar não tem cabelos. Eu também não.

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