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[A gente lemos] 100 Balas: Irmão Lono

100 Balas foi das coisas mais legais que eu li em muito tempo. O clima sujo e cru da premissa inicial (um desconhecido de terno surge na sua vida, e te entrega uma maleta. Dentro dela, uma pistola, 100 balas não rastreáveis e documentos que mostram quem te colocou numa vida de merda – e acredite, se você recebeu essa visita, é porque a sua vista está uma merda!) era sensacional já de partida. Aquele tipo de história que você lê e diz: “e se fosse comigo?”

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Pois bem: com o desenrolar da trama, é óbvio que Azzarello inseriu outros dramas e personagens além do velho Graves (o homem da maleta). Um desses personagens era o maior filho da puta de todos: Lono, o sádico assassino do Cartel. Também nossa estrela maior neste spin-off.

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Pois bem: como todo filho da puta que escapa com vida da morte certa, Lono quer deixar seu passado de assassino impiedoso para trás. O problema é querer fazer isso justamente no vilarejo de Durango, México. Isso porque Durango é um lugar completamente dominado pelo crime, que gira em torno do tráfico de drogas. Entre mortes, mutilações e ultraviolência, Lono (agora “irmão”) tenta conseguir redenção e uma nova vida, ao lado do Padre Manny e seu exército de órfãos. Mas tem muita coisa em seu caminho: por um lado, Las Torres Gemelas, a quadrilha responsável pelo tráfico na região. Por outro, a ameaça bastante presente do departamento antidrogas americano, o DEA, que pode incendiar a bomba de Durango.

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Se em 100 Balas Azzarello, Risso e Johnson (o capista original da série, também de volta aqui) contaram uma mega história de crime, violência e honra, muitas vezes fazendo justiça a toda uma tradição de histórias policiais, em Irmão Lono eles decidem beber de outra fonte: é impossível não ler o spin-off sem se lembrar de clássicos do faroeste, como Era uma vez no Oeste, por um lado, e filmes mais contemporâneos como A Balada do Pistoleiro, por outro. O resultado é uma história eletrizante, que pra mim atualiza o que de melhor foi desenvolvido pelos westerns. Lono é o forasteiro perfeito: por mais que tente passar despercebido por todos, suas excentricidades (como o fato de voluntariamente ir dormir na cadeia de tempos em tempos) o fazem estar sempre perto demais das coisas que vão dar zebra. Noutras palavras, é como diz aquele mene com a cara do Tiririca: Lono pode até querer fugir de si mesmo, mas aonde ele for, lá ele estará.

Na arte, não há o que dizer de Risso que já não tenha sido dito. Seu trabalho é magistral, às vezes colocando dois, três níveis de ação numa mesma cena. É incrível como seu traço, apesar de “pouco” detalhado, consegue passar com maestria detalhes muito sutis, como a naturalização da violência que impera em Durango. Outro ponto é o sexo: tão banal quanto a violência no mundo de 100 Balas, Risso consegue fazer dele algo ao mesmo tempo excitante e perigoso, desejável e repugnante.

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Ou seja, naquele resumo bala de sempre: se você, como eu, fica ressabiado com continuações e spin-offs de séries bem acabadas, e por isso mesmo torceu o nariz para Irmão Lono na banca de jornal, pode voltar atrás sem medo. O álbum (que tem um preço bastante honesto para o que te oferece) foi o melhor filme que eu li este ano. Entendedores entenderão.

 

Irmão Lono, de Brian Azzarello e Eduardo Risso. 196 páginas, R$23,90. Editora Panini.

 

Nota: 9

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